• Autor convidado

O que faz a Associação Psicodélica do Brasil

Atualizado: Ago 21

Autores convidados: Sandro Rodrigues, Márcio Roberto, Daniela Monteiro e Fernando Beserra.



Há seis anos, a Associação Psicodélica do Brasil (APB) reúne pesquisadores, profissionais, usuários e militantes comprometidos com disseminar informação qualificada, disponibilizar tecnologias de cuidado humanizado em saúde e fomentar o debate público acerca de aspectos clínicos, políticos e culturais do uso de psicodélicos.


Um pouco da história da APB


Em 2013, o psicólogo e colunista Fernando Beserra e o músico \e psicólogo Sandro Rodrigues, ambos participantes do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP) e com histórico de interesse e dedicação ao tema dos psicodélicos, integravam também o núcleo de articulação e formação política da Frente Estadual de Drogas e Direitos Humanos do Rio de Janeiro (FEDDH-RJ), onde tomaram várias iniciativas para levantar o debate sobre os psicodélicos e seus potenciais.


Em 2014, Fernando e Sandro organizaram uma oficina sobre Psicodélicos e Redução de Danos na Casa Nuvem (Lapa-RJ), que despertou grande interesse na comunidade psicodélica local e atraiu novas parcerias, como a do economista Márcio Roberto Oliveira Jr., envolvido pessoalmente com a cultura trance. No mesmo ano, foi realizada a primeira versão da Ala Psicodélica na Marcha da Maconha do Rio de Janeiro (inspirada no Bloco Psicodélico de São Paulo), que teve como objetivo político explícito defender a inclusão de todas as substâncias no debate social pró-regulamentação, com especial ênfase nos psicodélicos e seus potenciais terapêuticos. Em novembro, realizaram o 1º Seminário sobre Psicodélicos do Rio de Janeiro, no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ), quando foi apontada a urgência de se sustentar um coletivo organizado para ampliar o escopo das ações que vinham promovendo, sobretudo em relação à questão da adulteração de substâncias sintéticas. Um artigo foi publicado com algumas das principais questões levantadas no seminário. Aos poucos, mais pessoas foram se juntando e, em 2015, começaram a se encontrar semanalmente em um consultório no Centro do Rio de Janeiro, quando decidiram denominar o grupo de Associação Psicodélica do Brasil (APB).


Oficina de Redução de Danos e Psicodélicos na Casa Nuvem (Lapa, RJ) em 14 de março de 2014 (Imagem: Associação Psicodélica do Brasil).


1ª edição da Ala Psicodélica na Marcha da Maconha do Rio de Janeiro, em 2014 (Imagem: Associação Psicodélica do Brasil).


Primeiro Seminário sobre Psicodélicos, no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, em 26 de novembro de 2014 (Imagem: Associação Psicodélica do Brasil).




O que a APB já fez até aqui


Em 2015, com os recursos de um projeto de extensão do Instituto Federal do Rio de Janeiro, foi produzida a cartilha Psicodélicos e Direitos Humanos, impressa e distribuída gratuitamente em ações diversas no Rio de Janeiro. A APB inicia ações de redução de danos em festas. Márcio articulou a participação da APB em uma série de festivais de arte e cultura alternativa como Mundo de Oz, Aldeia Trance, Anama, Respect Festival, dentre outros, realizando palestras, apresentações, expondo filmes relacionados ao tema dos psicodélicos – Cinedélico - e distribuindo a cartilha recém-publicada, além de convocar os usuários para atuar ativamente nas alas psicodélicas das Marchas da Maconha , ações que se mantiveram nos anos posteriores. Em julho, com a transferência de Sandro para o Maranhão, ocasião na qual supervisionou estágio em Centros de Apoio Psicossocial (CAPS-ad) e conduziu uma pesquisa em uma igreja do Santo Daime, teve início o processo de expansão regional da APB.


Em julho de 2016, foi lançado no Espaço Plínio, na Lapa (Rio de Janeiro), o livro Modulações de sentidos na experiência psicodélica, a partir da tese de doutorado de Sandro. Em agosto de 2016, Sandro e Fernando participaram da Jornada Plantas Sagradas em Perspectiva, importante evento científico sobre o tema, sediado pela Unicamp, em Campinas (SP), e em setembro a APB passou a integrar a Plataforma Brasileira Política de Drogas (PBPD), rede de entidades, coletivos e especialistas dedicada a promover a reforma da política de drogas no Brasil. Em novembro do mesmo ano, a APB participou do Caleidoscópio dos Psicodélicos, outro evento importante sediado pela Unicamp, momento em que a psicoterapeuta transpessoal Daniela Monteiro promoveu um esforço de articulação interestadual coletiva.


Em 2017 foi fundado o coletivo Brisa, voltado a ações de Redução de Danos (RD) em contexto de festas, que teve em Julia Castro uma importante realizadora. As ações do Brisa envolvem distribuição de material informativo, realização de rodas de conversa, palestras, debates, serviços de testagem de substâncias e acolhimento de pessoas em crises associadas ao uso de drogas. Em setembro, foi publicado um artigo de integrantes do coletivo Brisa, na primeira edição da Revista Platô: Drogas & Políticas, a partir de uma pesquisa em RD feita com recursos de um edital da PBPD. Em novembro, a APB passou a participar assiduamente do evento do Dia Nacional da Maconha Medicinal, no Rio de Janeiro.


Ação do Coletivo Brisa durante rave (Imagem: Associação Psicodélica do Brasil).



Dentre os diversos eventos de que a APB participou em 2018, alguns merecem destaque. Em fevereiro de 2018, Fernando apresentou a APB no evento Plantas Sagradas en las Americas (México). Em agosto, Fernando ofereceu um minicurso sobre uso de psicodélicos em psicoterapia, no Congresso de Biologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e em setembro a APB participou da Marcha da Maconha de Paraty. Em novembro, foi oferecida, no Espaço Amanita (Lapa), a primeira edição do minicurso realizado com apoio de toda APB. Desde então, o minicurso teve diversas edições, em Londrina, Curitiba (Paraná), Rio de Janeiro e São Paulo.


Em janeiro de 2019, já sob o governo Bolsonaro, teve início um grupo de estudos sobre psicoterapia com psicodélicos, coordenado por Sandro, Márcio e Fernando, cujo debate fomentou reflexões iniciais sobre parâmetros para um modelo de psicoterapia psicodélica de pegada latino-americana. Em maio de 2019, Fernando apresentou informações da redução de danos em festas no Brasil na 26a Harm Reduction Internacional Conference – Porto – Portugal. Em julho, a APB participou da Marcha das Favelas do Rio de Janeiro. Em agosto, Márcio ministrou uma palestra sobre microdosagem de psicodélicos e deu início a um grupo de estudos sobre o tema. Em setembro, Luar Perez e Gustavo Nizzo, psicólogos e integrantes da APB, deram uma palestra sobre redução de danos em festa no Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro. Em outubro, Sandro, que fizera parte do comitê científico do Congresso Internacional da ABRAMD, que ocorreu em junho em Curitiba, e que ministrou uma edição do minicurso sobre uso de psicodélicos em psicoterapia em São Paulo em abril, escreveu a apostila Introdução ao uso de psicodélicos em psicoterapia (2019), distribuída gratuitamente por meios virtuais, visando disseminar amplamente no país as pesquisas atuais no campo.


Apostila sobre o uso de psicodélicos em psicoterapia, escrita por Sandro Rodrigues.










Em meio à pandemia


Em 2020, teve início na APB o projeto clínico-político TRIP (Terapeutas em Rede pela Integração Psicodélica), rede formada de psiquiatras, psicólogos e terapeutas integrativos que estudam os psicodélicos. A terapia de integração psicodélica (TIP) se diferencia da chamada psicoterapia assistida por psicodélicos pelo fato de não envolver prescrição ou sessões com uso de psicodélicos, mas a TRIP trabalha na preparação das pessoas em relação a expectativas, riscos, interações entre substâncias, contra-indicações e melhores condições ambientais para se otimizar a experiência psicodélica até à integração do sentido das experiências vividas sob efeito de psicodélicos na vida dos sujeitos, visando o bem viver em comunidade. Em abril, Márcio ministrou o curso Microdose de psicodélicos e seus usos contemporâneos, com o objetivo de fomentar o debate sobre a prática da microdosagem no Brasil. Com o início do período de isolamento social em função da pandemia COVID-19, em março de 2020, houve um crescente aumento do interesse de pessoas em todo território nacional, por informações, além de meios e formas de ativismo psicodélico. A virtualidade dos encontros, permitiu que vários núcleos surgissem, somando-se ao Núcleo RJ, sede de origem da APB. Hoje somam-se a este os núcleos SP, MG, NE e SUL. No mesmo ano, foi lançado o primeiro volume da coleção Psicodélicos no Brasil, organizado por Sandro e Fernando, com ênfase em ciência e saúde, com capítulos de especialistas do tema no Brasil, cientistas, profissionais de saúde e militantes antiproibicionistas, tanto integrantes da APB quanto convidados externos. Ainda em 2020, a APB começou a participar de muitas lives e podcasts sobre psicodélicos, além de dar início à produção e transmissão, em seu canal do youtube, da série de lives Nordeste Psicodélico, organizada pelo Núcleo Nordeste da APB. No fim do ano, teve início um Grupo de Estudos, com apresentações quinzenais de membros e convidados externos, usuários, pesquisadores, profissionais da área de saúde e ativistas relacionados ao campo dos psicodélicos.


Em 2021, Fernando organizou um livro sobre redução de danos em contexto de festas, publicado pela Editora CRV, com grande participação de integrantes da APB, especialmente do Brisa, nos capítulos. O Núcleo Nordeste segue para a sua segunda edição do Nordeste Psicodélico, com novo ciclo de palestras, debates e performances. No mesmo ano, a APB instituiu o Centro de Estudos Psicodélicos (CEP), com o objetivo de promover estudos e pesquisas, desenvolver tecnologias alternativas, produzir e divulgar informação e conhecimento técnico e científico que digam respeito às substâncias e técnicas psicodélicas, a partir de uma perspectiva ampla relacionada às múltiplas modalidades de uso, em consonância com nossa perspectiva política. A APB tem efetuado um esforço coletivo de elaborar um projeto de regulamentação, englobando as modalidades de uso relacionadas às substâncias e técnicas psicodélicas que tenham como pressupostos a acessibilidade e a inclusão. Neste mesmo bojo, está em germe, a produção do segundo volume da coleção Psicodélicos no Brasil, desta vez com a temática arte e política.


Como posso participar e contribuir com a APB?


Como vimos, a Associação Psicodélica do Brasil atua em diferentes frentes e espaços. Atualmente, cerca de 20 membros efetivos organizam as diversas frentes de ação da APB e mais de uma centena de pessoas colaboram de modos diversos com o trabalho da associação. Caso tenha interesse em participar das futuras atividades, você pode informar-se sobre nossas próximas ações no site da APB, e também procurar os coordenadores dos núcleos da APB: Núcleo Nordeste (Cauê Pinheiro e Iago Lobo), Núcleo MG (Ivan Rennó) , Núcleo SP (Bianca Luna e Márcio Fão) e Núcleo Sul (Felipe de Nadai). Estamos à disposição para receber todas as pessoas interessadas em contribuir para o avanço das pautas coletivas e socialmente referenciadas no campo dos psicodélicos.








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