Psicodélicos, alucinógenos e enteógenos: o que são?

Atualizado: Fev 16




Por Lucas Maia, PhD.




Psicodélicos, assim como os psicofármacos, são moléculas que se ligam aos neurônios e modificam o seu funcionamento, provocando efeitos fisiológicos, psicológicos e comportamentais. Inicialmente, foram chamados de alucinógenos, tendo em vista a sua capacidade particular de alterar a percepção sensorial, com destaque para os efeitos visuais, que foram comparados às alucinações, manifestações visuais que podem ocorrer em quadros de esquizofrenia. Por este motivo, os primeiros estudos sobre psicodélicos em psiquiatria tratavam sobre a capacidade dessas substâncias de mimetizar, isto é, “imitar” alucinações e outros sintomas dos transtornos psicóticos – razão pela qual também receberam uma série de outros nomes, como psicotomiméticos, psicógenos e delirantes.


No entanto, alguns estudiosos logo perceberam que os efeitos psicodélicos não se restringiam àqueles semelhantes às psicoses, mas englobavam uma variedade de manifestações perceptuais, cognitivas e emocionais. Isso levou a Humphry Osmond, psiquiatra britânico que desenvolvia pesquisas no Canadá, a criar em 1956 o termo psicodélico, derivado das palavras gregas psique (“mente” ou “alma”) e delein (“manifestar”), denotando, portanto, aquilo que “manifesta a mente” ou “revela a alma”.


Humphry Osmond, psiquiatra britânico criador do termo "psicodélico".



Mais tarde, em 1979, pesquisadores que estudavam o uso de plantas e fungos psicoativos entre etnias indígenas e comunidades tradicionais propuseram o termo enteógeno, uma combinação do grego entre entheos (literalmente, “Deus dentro”) e gen (“tornar-se”), remetendo àquilo que “gera o divino internamente”, buscando assim ressaltar o uso ritualístico/místico/espiritual dessas substâncias.


Entre os exemplos mais conhecidos de uso tradicional de psicodélicos destaca-se o uso do cacto peyote e de cogumelos do gênero Psilocybe entre comunidades originárias do norte do México, cujas substâncias ativas são a mescalina e a psilocibina, respectivamente; e também o uso da ayahuasca – bebida de origem vegetal que contém dimetiltriptamina (DMT) – entre indígenas da Amazônia.


(1) Peyote, (2) Psilocybe cubensis, (3) ayahuasca.



O uso tradicional dos psicodélicos está inserido em contextos socioculturais específicos, tendo propósitos diversos, como a cura de doenças, contato com ancestrais e espíritos da natureza, inspiração artística, promoção de ordem social, feitiçaria, entre outros.

Na ciência biomédica, o foco da pesquisa com psicodélicos tem sido os seus possíveis efeitos terapêuticos para o tratamento de transtornos mentais, destacando-se o potencial antidepressivo da psilocibina, da ayahuasca e da quetamina, do MDMA para o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e da ibogaína e da ayahuasca para a dependência de drogas.


Embora a forma como cada substância atue sobre o funcionamento cerebral e os seus respectivos efeitos psicológicos ainda não estejam completamente esclarecidos, um número crescente de estudos indica que os psicodélicos podem aumentar a conexão entre diferentes regiões cerebrais relacionadas a funções como memória, cognição e emoção. Essa mudança na comunicação entre áreas cerebrais parece estar relacionada à redução de padrões psicológicos prejudiciais, como a ruminação (i.e., pensamentos repetitivos, circulares) de conteúdos negativos nos transtornos depressivos. As experiências místicas também parecem ter uma função importante, embora as razões específicas que expliquem a sua associação com os efeitos terapêuticos ainda não estejam claras.


No entanto, nem toda experiência psicodélica é terapêutica por si só e existem diversos relatos de experiências traumáticas que ocorreram fora dos contextos de pesquisa clínica. O que acontece é que dentro de estudos científicos uma série de cuidados são tomados para prevenir reações adversas e maximizar a chance de experiências terapêuticas. Os efeitos psicodélicos podem ser muito variáveis e dependem fortemente do contexto de uso (ambiente, pessoas, música, etc.) e do estado psicológico do usuário (estado emocional, expectativas, intenções, etc.), além da dose, tipo e pureza da substância em si.


Isso não é dizer que os efeitos terapêuticos ocorrem apenas nos contextos de pesquisa clínica; uma série de estudos que observaram participantes em contextos ritualísticos também descrevem a ocorrência de efeitos terapêuticos, além de inúmeros relatos positivos a partir do uso em contextos “recreativos”. Novamente, destaca-se o papel crucial da tríade contexto-indivíduo-substância, de forma que os efeitos psicodélicos e os seus possíveis reflexos terapêuticos tornam-se resultado da interação entre esses três fatores.


Além das substâncias já citadas neste artigo, existem ainda uma série de outros psicodélicos de origem natural (provenientes de plantas, fungos e até animais), como o delta-9-THC (Cannabis spp.), a salvinorina (Salvia divinorum), o LSA (Argyreia nervosa e outras) e a atropina (Atropa beladona, Brugmansia spp. e outras); e uma ampla variedade de psicodélicos sintéticos, produzidos artificialmente em laboratório.


(1) Cannabis spp., (2) Salvia divinorum, (3) Argyreia nervosa, (4) Atropa beladona.



A psicofarmacologia considera os psicodélicos cujo mecanismo de ação fundamental consiste na ativação de determinados receptores de serotonina como psicodélicos típicos ou clássicos (ex., LSD, psilocibina, DMT, mescalina) e aqueles com ação sobre outros tipos de receptores como psicodélicos atípicos (ex., salvinorina, delta-9-THC, atropina, quetamina). Ainda, outra nomenclatura bastante utilizada no meio científico classifica os psicodélicos como perturbadores (ou psicodislépticos) do sistema nervoso central, considerando que essas substâncias desorganizam o funcionamento cerebral, diferentemente das estimulantes (que aceleram) e das depressoras (que diminuem).


Na literatura científica, preponderou durante muito tempo o termo alucinógenos, mas hoje o termo mais utilizado tem sido psicodélicos; já enteógenos é empregado mais frequentemente entre grupos urbanos com inspirações/influências dos contextos tradicionais de uso ritual de plantas/fungos psicoativos. Como vimos, cada um dos termos carrega sentidos próprios que refletem influências socioculturais importantes. Contudo, em essência, se referem à mesma classe de substâncias.


Referências


Carlini EA, Maia LO (2017). Plant and Fungal hallucinogens as toxic and therapeutics agents. In: Gopalakrishnakone P, editor. Toxinology. Plant Toxins. Dordrecht: Springer.


Ruck CA et al. (1979). Entheogens. Journal of Psychedelic Drugs. 11(1-2):145-6.


Schultes RE, Hofmann A (1979). Plants of the Gods: origins of hallucinogenic use. New York: McGraw- Hill.

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