Ayahuasca, doenças graves e o mistério da morte

Atualizado: Fev 7




Por Lucas Maia, PhD.




Quando uma doença grave nos acomete, diversas reflexões existenciais podem acontecer, por exemplo: “como isso vai afetar a minha vida?”, “eu vou sofrer?”, “eu vou morrer?”. Ao lidar com essas questões, algumas pessoas terão grande dificuldade de manejar o impacto emocional gerado pelo diagnóstico, chegando a desenvolver quadros clínicos de ansiedade e depressão. O uso ritual da ayahuasca poderia trazer benefícios e ajudar pessoas nessa situação a lidar melhor com o adoecimento? Essa foi a pergunta central do estudo que desenvolvi durante o meu doutorado, cujos resultados foram publicados recentemente na revista científica estadunidense Journal of Psychoactive Drugs (Maia, Daldegan-Bueno & Tófoli, 2020).



A origem e os objetivos do estudo


Há tempos que me interesso pelo tema sobre a morte. Isso começou, principalmente, quando li O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche, há dez anos atrás, em 2010. Isso aconteceu na mesma época em que eu comecei a me aproximar mais do uso ritual da ayahuasca, quando tive contato e participei de cerimônias xamânicas com curandeiros andinos em São Paulo, onde eu estava morando. Eu fazia mestrado em psicofarmacologia na Universidade Federal de São Paulo e tinha interesse especial pelas plantas e substâncias psicoativas. Durante esse período, tomei conhecimento sobre os primeiros estudos a respeito do uso de psicodélicos para o tratamento de ansiedade e depressão em pacientes com câncer, realizados nos Estados Unidos nas décadas de 60 e 70, com resultados promissores (Reiche et al., 2018). Aquilo me fascinou, pois combinava dois temas que me instigavam pessoalmente e cientificamente.



Sogyal Rinpoche, autor do livro "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer".



Alguns anos mais tarde, em 2017, agora como estudante de doutorado em saúde mental na Universidade Estadual de Campinas, decidi então pesquisar a respeito do potencial terapêutico da ayahuasca para pessoas com doenças graves. Àquela época, estudos preliminares já apontavam efeitos terapêuticos da ayahuasca no âmbito da saúde mental e alguns trabalhos pontuais sugeriam benefícios psicológicos para pessoas com câncer e outras doenças físicas. Contudo, muito pouco se sabia acerca dos processos psicológicos envolvidos nestes efeitos.


Diante disso, a pergunta central que me ocorria era: como operam os efeitos terapêuticos descritos por pessoas com doenças físicas graves que tiveram experiências com ayahuasca? Embora a natureza das doenças que eu estava estudando fosse de ordem física, eu estava interessado em estudar a experiência subjetiva das pessoas acometidas por doenças físicas graves – definidas como doenças agudas ou crônicas que apresentam risco de vida ou incapacitação grave do paciente. Sabidamente, o diagnóstico de uma doença grave pode causar reações psicológicas que desencadeiam emoções e sentimentos negativos (ex., ansiedade, medo, raiva, tristeza, desespero e desesperança), que somados aos sintomas físicos agravam o sofrimento e prejudicam o tratamento (Mitchell et al., 2011). Assim, tendo em mente as pesquisas e relatos que já existiam, elaborei um estudo buscando investigar como a experiência com ayahuasca pode beneficiar a saúde mental e influenciar o modo como pessoas com doenças graves compreendem o seu próprio adoecimento.



O modo como o estudo foi conduzido


Juntamente com o meu orientador, o professor Luís Fernando Tófoli, elaborei um projeto de pesquisa de natureza qualitativa, com o intuito de entrevistar pessoas que haviam feito uso ritual da ayahuasca durante o período de tratamento de doenças físicas graves e que haviam observado impactos positivos sobre a sua percepção do adoecimento.



Estudo conduzido por Lucas Maia, Dimitri Daldegan-Bueno e Luis Fernando Tófoli, e publicado no periódico Journal of Psychoative Drugs.



Selecionamos quatorze participantes, sete mulheres e sete homens, entre 24 e 61 anos, envolvendo casos de câncer, HIV, esclerose múltipla, e outras doenças. Metade já havia tido experiências com ayahuasca antes do diagnóstico e a outra metade buscou o uso do chá após o diagnóstico, motivados por relatos de experiências terapêuticas e pela influência de amigos.


Entrevistei pessoalmente cada participante utilizando técnicas de entrevistas em profundidade utilizadas em pesquisa qualitativa. Aplicando a técnica de análise temática (Braun & Clarke, 2006) nas entrevistas transcritas, procurei identificar padrões semelhantes entre as narrativas dos diferentes participantes – ou seja, trechos com significados em comum – e agrupá-los em categorias (temas). Esse método permite identificar e evidenciar os aspectos mais importantes dentro do conjunto de narrativas.



O que encontrei


Durante o estado de introspecção acentuada proporcionado pela ayahuasca, os participantes relataram que foi possível acessar/rever memórias da sua autobiografia e analisar tais conteúdos à luz de um olhar mais compassivo de si mesmo. Frequentemente, essa experiência incluiu catarses emocionais seguidas por sentimentos de autoperdão, autoaceitação, pertencimento, gratidão, confiança, calma, amor, alegria, entre outros – em contraposição aos sentimentos negativos provocados pela situação do adoecimento.


Mas os resultados que mais chamam a atenção estão ligados à forma como a experiência com ayahuasca influenciou o modo como os participantes compreendem a doença. Os relatos sugerem que a experiência com ayahuasca possibilitou examinar a concepção pessoal sobre a origem da doença, gerar novas compreensões e, assim, atribuir novos significados ao adoecimento. Isso mostrou uma influência marcante sobre a aceitação da doença. Por exemplo, alguns participantes contaram que após experiências com ayahuasca passaram a ver a doença como um veículo de autotransformação e autoconhecimento, uma vez que trouxe mudanças positivas à vida.



No estudo de Maia, Daldegan-Bueno & Tófoli, observou-se que a experiência com ayahuasca influenciou o modo como os participantes compreendem a doença.



Os participantes descreveram olhar a doença com um maior distanciamento e naturalidade, relativizando a sua centralidade na vida, o que favoreceu um modo mais equilibrado de se relacionar com a doença e estimulou a adesão ao tratamento médico. Além disso, relataram que a ayahuasca promoveu melhoras sobre a percepção do corpo e do seu funcionamento, bem como dos efeitos da doença e do tratamento médico sobre o corpo, o que facilitou o autocuidado e influenciou escolhas importantes relacionadas ao tratamento, incluindo o tipo de tratamento a ser aderido.


Tendo em vista que doenças graves podem envolver risco de vida, o medo da morte é comum entre os pacientes. Nesse sentido, os participantes do estudo com doenças potencialmente fatais relataram que as experiências com ayahuasca proporcionaram uma redução do medo da morte, o que envolveu um processo de aceitar que a vida é finita e que a morte pode – e, em algum momento, vai – acontecer.



Em pacientes com doenças potencialmente fatais, o estudo observou ainda que as experiências com ayahuasca proporcionaram redução do medo da morte.



Ao mesmo tempo, aceitar a condição de ser mortal mostrou implicações sobre os significados atribuídos à vida, o valor que se dá a ela e o modo de conduzi-la. Nesse sentido, foram descritas mudanças em relação à forma de se relacionar que facilitaram a resolução de conflitos familiares (ex., com mais empatia e paciência) e a busca por hábitos mais saudáveis (ex., alimentação, exercícios físicos, redução de uso de substâncias, práticas meditativas). O processo de adoecimento em si pode despertar reflexões dessa natureza, porém, o que os resultados do estudo sugerem é que a experiência com ayahuasca pode potencializar o processo de aceitação da morte e gerar novos significados em relação à morte e à vida.


No âmbito da saúde física, foram relatados benefícios como boa tolerabilidade à quimioterapia (i.e., poucos efeitos colaterais), estabilidade imunológica ao longo do tratamento e diminuição de dores crônicas. No entanto, esses resultados são baseados exclusivamente nos relatos dos participantes e estão sujeitos a possíveis vieses, como variações de memória. Não analisamos exames ou outros indicadores clínicos e biológicos. É possível que os efeitos terapêuticos observados em âmbito psicológico, a melhora na saúde mental e no bem-estar, assim como mudanças no estilo de vida estejam relacionados aos benefícios físicos observados.


Dentro desses achados, é importante considerar o papel de possíveis efeitos placebo, tendo em vista que a natureza simbólica da experiência com ayahuasca – muitas vezes atrelada a símbolos e significados relacionados à cura – a torna particularmente propensa a desencadear respostas que não estão ligadas especificamente às propriedades farmacológicas da substância. No entanto, efeitos farmacológicos e efeitos placebo podem ocorrer simultaneamente, de modo que os resultados observados podem envolver ambos (Brody, 2018).



O que concluí



Com base nos resultados, concluí que a experiência ritual com ayahuasca pode facilitar a aceitação da doença, por meio de múltiplos processos psicológicos, com destaque para a ressignificação da doença. Em conjunto com melhoras na saúde mental e a diminuição do medo da morte, a experiência com ayahuasca favoreceu um relacionamento mais equilibrado com a doença e com o tratamento médico. Esses resultados reforçam a possibilidade de se empregar a ayahuasca e outras substâncias psicodélicas como ferramentas terapêuticas para reduzir o sofrimento psicológico gerado pela experiência de uma doença grave.


Embora ainda se trate de um estudo preliminar, com limitações importantes intrínsecas à natureza exploratória (e não confirmatória) da pesquisa, ele reforça alguns e aponta novos potenciais terapêuticos da ayahuasca. No entanto, compreendo que a experiência com ayahuasca e outros psicodélicos é ampla, complexa e abstrata. Por mais que tentemos examinar e traduzir em termos científicos a “linguagem” da experiência subjetiva, com suas inúmeras características e influências biopsicossociais, presumo que ela permanecerá diversa e misteriosa – o que faz da experiência psicodélica tão rica e instigante.


Referências


Braun, V., & Clarke, V. (2006). Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, 3, 77–101. https://doi.org/10.1191/1478088706qp063oa


Brody, H. (2018). Meaning and an Overview of the Placebo Effect. Perspectives in Biology and Medicine, 61(3), 353–360. https://doi.org/10.1353/pbm.2018.0048


Labate, B. C. (2004). A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos (Campinas: Mercado de Letras; São Paulo: Fapesp).


Maia, L. O., Daldegan-Bueno, D., & Tófoli, L. F. (2020). The ritual use of ayahuasca during treatment of severe physical illnesses: a qualitative study. Journal of Psychoactive Drugs, 1–11. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/02791072.2020.1854399


Mitchell, A. J., Chan, M., Bhatti, H., Halton, M., Grassi, L., Johansen, C., & Meader, N. (2011). Prevalence of depression, anxiety, and adjustment disorder in oncological, haematological, and palliative-care settings: a meta-analysis of 94 interview-based studies. The Lancet. Oncology, 12(2), 160–174. https://doi.org/10.1016/S1470-2045(11)70002-X


Reiche, S., Hermle, L., Gutwinski, S., Jungaberle, H., Gasser, P., & Majić, T. (2018). Serotonergic hallucinogens in the treatment of anxiety and depression in patients suffering from a life-threatening disease: A systematic review. Progress in Neuro-psychopharmacology & Biological Psychiatry, 81, 1–10. https://doi.org/10.1016/j.pnpbp.2017.09.012


Uma versão ampliada deste artigo foi publicada originalmente no site Chacruna Latinoamérica, instituição parceira do Ciência Psicodélica.


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