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Como psiquiatria, neurociência e psicanálise explicam o fenômeno psicodélico

Atualizado: 22 de mai. de 2023



Resumo: Por que é interessante buscar entender como áreas tão diferentes do conhecimento como a psiquiatria, a neurociência e a psicanálise compreendem o fenomeno psicodélico? Os esforços para entender o que acontece na consciência durante uma experiencia psicodélica datam de mais de um século na ciência ocidental. Mas por ser uma ocorrência tão complexa, não poderia ser entendida através de apenas um ponto de vista. Este artigo usa como base uma revisão bibliográfica (Swanson, 2018) que te conduzirá a uma viagem de 125 anos entre os modelos teóricos que se aventuraram a explicar o misterioso fenômeno da experiência psicodélica, descrevendo a fenomenologia subjetiva dos efeitos psicodélicos agudos, revisando teorias do final do século XIX e acrescentando as descobertas mais recentes da neurociência.


 

A experiência psicodélica possui um mistério que torna natural a curiosidade em dissecá-la e descrevê-la. E, claro, essa necessidade não passaria despercebida pelos olhos atentos da ciência, que está em constante reformulação e reavaliação dos fatos, conforme a evolução das tecnologias e métodos que nos permitem avançar.


Este texto foi inspirado em uma revisão bibliográfica (Swanson, 2018) que te conduzirá a uma viagem de 125 anos entre os modelos teóricos que se aventuraram a explicar o misterioso fenômeno da experiência psicodélica. A ideia, no final, é buscar pontos em comum entre eles, e entender o porquê da experiência psicodélica possuir um grande potencial terapêutico.


Antes de iniciar a nossa jornada, é importante relembrar alguns efeitos psicológicos das substâncias psicodélicas, descritos de forma mais aprofundada por Yaden e Griffiths (2020), que serão importantes norteadores da discussão:


  • Emocionais: Intensificação das emoções latentes;

  • Cognitivos: Redução no desempenho da memória de trabalho/atenção; produção de significados e aumento da criatividade;

  • Perceptivos: Visões, memórias vívidas;

  • Dissolução do Ego.


A primeira utilidade clínica dos psicodélicos estava relacionada ao estudo da esquizofrenia. Não é por acaso que estas substâncias foram classificadas inicialmente como "psicotomiméticas". A palavra "mimética" significa "imitar", indicando que alguns dos seus efeitos eram percebidos como sintomas iguais aos da psicose – em especial, os efeitos sobre a percepção sensorial e o pensamento, como alucinações e delírios.


Porém, a partir da década de 1930, a mescalina passa a apresentar resultados efetivos para sintomas neuróticos. Essa inconsistência fez com que o modelo teórico da psicotomimética fosse questionado, pois como é possível uma substância produzir e tratar os mesmos sintomas? Essa questão abriu uma brecha para que novas explicações fossem formuladas. Se estas substâncias não são psicotomiméticas, então o que são?


Na década de 1950, o psiquiatra Humphry Osmond e o filósofo e escritor Aldous Huxley propuseram o termo "psicodélico", derivado das palavras gregas psique (“mente” ou “alma”) e delein (“manifestar”), referindo-se àquilo que “manifesta a mente” ou “revela a alma”. O termo substituiu a expressão “psicomimético”, porque se compreendeu que o fenômeno psicodélico é mais complexo do que uma imitação dos sintomas de esquizofrenia, tornando essa ideia desatualizada. Hoje, sabemos que os psicodélicos raramente causam alucinações verdadeiras, aquelas em que a pessoa não consegue distinguir se aquilo que está vendo ou ouvindo, por exemplo, é real (isto é, faz parte da realidade material) ou é uma manifestação dos efeitos transitórios da substância. Diferentemente, na esquizofrenia, perde-se essa capacidade de discernir entre realidade e produtos da própria mente.


Além do novo termo, a dupla também foi responsável por propor um novo modelo teórico: a Teoria do Filtro, a qual afirma que nosso cérebro possui mecanismos responsáveis por “filtrar” a enorme quantidade de percepções a que somos bombardeados a todo instante. De acordo com o modelo, esse filtro permitiria passar somente os estímulos que nos permitissem prever e descrever; ou seja, estímulos úteis para nossa sobrevivência. As substâncias psicodélicas "desligariam" o filtro por um tempo e, assim, induziram a manifestação de estímulos que não passariam à consciência, o que pode levar à experiência de emoções que poderiam não ocorrer caso tais estímulos não se tornassem consciente. Vale lembrar que a teoria psicotomimética não é mais aceita para explicar o fenômeno psicodélico, mas serviu de respaldo para os estudos da época.


Humphry Osmond (esquerda) e Aldous Huxley (direita) criadores do termo "psicodélico" e da "Teoria do Filtro".



Essa ideia, que não foi cientificamente testada, satisfaz o questionamento anterior: como as substâncias psicodélicas seriam capazes de produzir sintomas da esquizofrenia e ao mesmo tempo tratar sintomas de outros transtornos? A abertura temporária do “filtro” produziria efeitos parecidos com a esquizofrenia, pelo fato de ambos serem o resultado do enfraquecimento desse filtro. A diferença é que na esquizofrenia essa abertura seria crônica. Um “filtro com vazamento" coloca poucas restrições sobre o conteúdo que emerge à consciência, resultando em confusão, delírio ou alucinação.


Esse desligamento poderia ter efeitos terapêuticos quando o problema é justamente um filtro “forte demais", que limita os estímulos e percepções, causando uma vida rígida e neurótica. A neurose é um termo psicanalítico e pode ser definida brevemente como um sofrimento psíquico manifestado na forma de sintomas e padrões repetitivos de comportamento. Um psicodélico, ao abrir temporariamente o filtro, poderia permitir que novos pontos de vista e percepções se manifestem, flexibilizando estes padrões repetitivos.


Assim, a Teoria do Filtro ofereceu uma forma de entender os efeitos psicodélicos de forma coerente, tanto com suas propriedades psicotomiméticas como com suas utilidades terapêuticas. Porém, uma nova questão surge: que estrutura é responsável por essa filtração? A Teoria do Filtro não explica necessariamente quais estruturas psíquicas são desligadas e como esse processo acontece.


A solução para esse enigma foi encontrada nos conceitos psicanalíticos de “Ego” e funcionamento primário e secundário, que serão apresentados a seguir.


O funcionamento primário, grosseiramente falando, é onde as percepções, emoções e desejos ecoam livremente, passando sem barreiras e sem linearidade. É onde se localizam os sonhos. Já o processamento secundário seria algo construído ao longo do tempo, onde os estímulos, percepções, emoções e ideias seriam filtrados para que fosse possível transitar pela sociedade e pensar de maneira racional. E qual estrutura psíquica seria responsável por controlar essa filtragem? O Ego.


De acordo com alguns teóricos, estes conceitos da psicanálise poderiam preencher a lacuna deixada pela Teoria do Filtro: o Ego seria a estrutura responsável por mediar o trânsito entre os conteúdos psíquicos que emergem para a consciência e que são indispensáveis para a nossa sobrevivência. Quando uma substância psicodélica “desliga” o Ego, o processamento primário invade a consciência sem barreiras, fornecendo imagens, ideias e percepção sensorial aumentada (Swanson, 2018).


Mas, então, surge uma nova pergunta: como as substâncias psicodélicas conseguem diminuir a função do Ego? O que acontece em nosso cérebro para produzir esse efeito subjetivo? Estas perguntas impulsionaram a proposta de um novo modelo teórico, que busca integrar os modelos anteriores às novas descobertas.


Aqui, torna-se necessário encontrar um respaldo menos subjetivo. Por isso, buscar a farmacologia dos psicodélicos e seu mecanismo de ação é uma forma excelente de responder à pergunta deixada pela visão psicanalítica.


Os psicodélicos clássicos são moléculas semelhantes à serotonina. Assim, eles se ligam a alguns dos receptores onde esse neurotransmissor naturalmente se liga, especialmente os receptores 5-HT2A. Se afastarmos um pouco a nossa lente para uma visão mais macro, veremos uma mudança nos padrões de redes neurais. Difícil de entender? Vamos por partes:


Uma rede neural é um conjunto de neurônios de áreas (ou estruturas) diferentes do cérebro que se comunicam. Nosso cérebro possui um bocado desses conjuntos e, para cada ação que realizamos, são ativadas diferentes redes neurais. Algumas para caminhar, outras para aprender inglês, por exemplo.


Quando estamos “fazendo nada”, também adotamos uma rede neural: a famosa Rede de Modo Padrão (do inglês, Default Mode Network - DMN). Essa rede de neurônios é solicitada quando nos voltamos para nossas preocupações: planejar o futuro, remoer o passado e pensar sobre si mesmo. Ela se ativa quando não é necessário realizar uma tarefa. A atividade exagerada dessa rede tem sido associada a condições como a depressão e o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), que apresentam como características pensamentos repetitivos (sobre o futuro, passado) e autodepreciativos.


O interessante é que, muitas vezes, se uma rede neural está ativada, outra rede associada a outra tarefa não pode ser ativada ao mesmo tempo. Por isso, algumas redes neurais são mutuamente excludentes. Ou seja, se uma se ativa, a outra se desativa. Para ilustrar essa dinâmica de funcionamento com uma metáfora, podemos pensar na ideia de que é possível ler um texto e cantar uma música ao mesmo tempo.


Estudos têm demonstrado que diferentes psicodélicos influenciam a DMN, primeiramente enfraquecendo o seu funcionamento, o que poderia estar associado à uma diminuição do ritmo da “mente” (ou dos seus pensamentos); e, em segundo lugar, ativando redes neurais excludentes. Ou seja, redes que normalmente não se ativavam juntas.


Essas descobertas representam peças importantes para o quebra-cabeça.


Uma pista chave é que o aumento da liberação de serotonina levaria a uma dinâmica de aumento da atividade de várias redes neurais. E, por conta disso, os psicodélicos levam a uma mudança do padrão de atividade cerebral, aumentando a "comunicação" entre determinadas regiões (inclusive algumas que não costumam se comunicar). Este fato poderia estar relacionado ao aumento de criatividade, produção de significados novos, e até mesmo da sinestesia, pois produz novos padrões de conexão que não seriam possíveis em um estado ordinário de consciência. Graças à neuroimagem, pela primeira vez foram observados efeitos neurofisiológicos que se relacionam com os efeitos subjetivos.


Aumento na conectividade cerebral após LSD (direita), em comparação com placebo (esquerda) (Carhart-Harris et al, 2014).



E aqui cabe refazer a última pergunta: por que todo esse processo é terapêutico?

Para responder a essa questão, foi necessário construir um novo modelo teórico, relativamente recente: o modelo teórico da Entropia Cerebral, proposto, em 2014, por Robin Carhart-Harris, então pesquisador do Imperial College of London, e atual pesquisador da Universidade da Califórnia em São Francisco.


Carhart-Harris utilizou uma palavra em comum para caracterizar o estado caótico que se manifesta tanto na forma de perceber os efeitos (subjetivos), quanto na atividade neuronal: “entropia”. Este é um termo emprestado da física que indica o nível de desordem e aleatoriedade de um sistema. A hipótese afirma que os efeitos psicodélicos característicos (por exemplo, flexibilidade cognitiva, dissolução do ego) podem ser mapeados no cérebro considerando o nível de entropia (desordem). Esse nível de entropia considera a diminuição da DMN, a presença de redes neurais excludentes ativadas juntas e o nível de atividade dos neurônios. Aqui, a experiência psicodélica seria o grau mais alto de entropia. O estado de vigília seria o grau mais baixo. Nessa escala, podemos pensar na esquizofrenia como um alto nível de entropia, e a neurose ou o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) como baixíssimo nível de entropia, caracterizado pela rigidez de pensamento e comportamento e pouca flexibilidade psicológica.


Assim, trazendo a psicanálise de volta à discussão, o funcionamento primário citado antes seria um estado de alta entropia, enquanto o funcionamento secundário seria um nível de baixa entropia, mantido por um mecanismo de repressão dos estímulos com a função de organizar a dinâmica psíquica: o Ego.


E é aqui que a coisa fica mais interessante: nesse modelo teórico, a estrutura biológica correspondente ao Ego seria a DMN. Quando um psicodélico diminui a atividade dessa rede o suficiente, ocorreria a dissolução do Ego. Assim, nesta proposta de modelo, o funcionamento primário estaria a todo vapor, sem nenhum filtro restringindo as possibilidades de altíssima entropia, e com todas as relações possíveis. Isso poderia ser terapêutico pelo fato de possibilitar que novas conexões se estabeleçam e novos caminhos neurais sejam traçados. Curiosamente, sujeitos que experimentaram a "completa" dissolução do ego em terapias assistidas por psicodélicos são mais suscetíveis a resultados clínicos positivos (Nikolaidis, 2023).


Assim, a capacidade dos psicodélicos de enfraquecer temporariamente o Ego (correlato à DMN) pode ser terapêutica quando o caos proporcionado ao cérebro enfraquece padrões reforçados de pensamento e comportamento, permitindo a construção de novos significados.


Importante reforçar que a ciência do século XXI ainda está no processo de propor um modelo teórico robusto que contemple fenômenos subjetivos à eventos biológicos. Este texto apresentou um histórico das teorias propostas para explicar o fenômeno psicodélico, além do modelo teórico mais recente que busca unificar as ideias propostas anteriormente. Apesar de ser apenas uma hipótese, não se pode negar que ela pode representar um potencial para que outros modelos teóricos se aventurem a preencher as lacunas existentes entre cérebro e mente, possibilitando um horizonte de novos caminhos e concepções da realidade.


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