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  • Foto do escritorBruno de Pauw

Realidade Virtual na terapia psicodélica: amiga ou inimiga?


Homem utilizando óculo de realidade virtual.

Resumo: O uso da realidade virtual como ferramenta que auxiliaria a terapia assistida por psicodélicos já é uma discussão real e movimenta os principais pólos de conhecimento. Pessoas interessadas em resolver o possível problema da falta de terapeutas especializados se debruçam sobre o assunto com a justificativa de que a tecnologia pode facilitar o treinamento desses profissionais, além de otimizar as sessões de integração. No entanto, ainda não existem estudos que comprovem seus benefícios e a desconfiança da apropriação dos psicodélicos pela indústria levanta dúvidas sobre a real necessidade do uso.


 

O título deste texto é o mesmo de uma das palestras de maior destaque, em 2023, do SXSW, o South By Southwest, considerado o maior festival de inovação do mundo, que acontece todo ano em Austin (Texas), nos Estados Unidos. À primeira vista, o uso da realidade virtual (RV) na terapia psicodélica poderia ser só mais uma invenção do mercado para monetizar o uso de substâncias como a psilocibina e o MDMA. Mas, apesar de recente, a temática tecnológica surge com a premissa de potencializar a eficácia da já existente psicoterapia assistida por psicodélicos (PAP).


Existe a noção de que a experiência psicodélica, mesmo em contexto terapêutico, se desenrole de uma maneira nada pragmática. Quem já viveu sabe que a “viagem” com essas substâncias é bem menos cartesiana do que outras vivências comuns, se expressando, em grande parte, através de estímulos mais simbólicos e emocionais, que muitas vezes não se encaixam facilmente na estrutura analítica de pensamentos. Não à toa, a inefabilidade, ou seja, a impossibilidade de descrever, é uma sensação comum observada nos relatos de pacientes e psiconautas.


A natureza desse tipo de experiência tende a desafiar os diversos protocolos de psicoterapia. Alguns efeitos terapêuticos dos psicodélicos ocorrem de forma muito rápida e pacientes podem sentir redução de sintomas no dia seguinte, seja por seus efeitos farmacológicos sobre a neuroplasticidade, por exemplo, seja por facilitar processos emocionais ou de memória durante a experiência.


Mas, além de estar em um ambiente adequado e sob supervisão de profissionais durante a experiência psicodélica, entre outros pontos, é essencial que haja um acompanhamento posterior a fim de que o paciente elabore a experiência e dê sentido ao que vivenciou durante a sessão.


É também nesse estágio, conhecido como integração, que os insights vivenciados podem se tornar catalisadores de mudanças concretas na vida de uma pessoa com depressão ou transtorno de estresse pós-traumático, por exemplo – ou até mesmo em pessoas em condições terminais.


Mulher utilizando óculos de realidade virtual.

Imagem: Health Professional Radio.


Foi mirando na integração que a pesquisadora Agniezka Sekula e o psiquiatra Prash Puspanathan fundaram a Enosis Therapeutics, uma startup australiana focada no desenvolvimento de cenários de RV como forma de facilitar a PAP. O software AnchoringVR, desenvolvido pela empresa para ser usado com qualquer óculos de RV, cria cenários imersivos em que os pacientes podem interagir logo após os efeitos psicodélicos se dissiparem ou em sessões de integração.


O protocolo proposto pela Enosis não mira na experiência com a substância, mas sim a partir do final dela, quando os efeitos começam a se dissipar. Nesse momento, o paciente coloca os óculos de RV e adentra um mundo construído para ele, um cenário aberto que lembra uma praia, com fogueiras e céu estrelado. O paciente, então, pode interagir com o ambiente a partir dos elementos visuais ao seu redor. As pedras podem ser rotuladas com uma carga emocional ou trauma, e, eventualmente, serem jogadas ao vento. Também é possível pegar as estrelas do céu com as mãos, e usá-las como gravadores de ideias. Quando colocadas em conjunto, elas formam uma constelação de memórias daquela experiência.


Imagem de realidade virtual com uma fogueira e elementos coloridos dentro de bolhas transparentes.

Imagem: Enosis Therapeutics.


Esse recurso permite que o paciente acesse as gravações em sessões futuras a fim de relembrar e dar sentido à sua jornada junto com seu terapeuta. Além disso, é possível ‘nutrir’ algumas estrelas ao gravar novas reflexões sobre aquele respectivo tema adquiridas ao longo do processo terapêutico. Eventualmente, pode-se plantar uma estrela. As estrelas plantadas representam assuntos mais esclarecidos e por isso se tornam árvores ricas em insights.


Também existe a possibilidade de “liberar” uma estrela, jogando-a na fogueira. Não fica claro qual seria o objetivo dessa funcionalidade, mas, um palpite seguro seria interpretar o ato como uma forma simbólica de “desapegar” de algum sentimento ou trauma associado àquele tema.


Em uma entrevista ao site australiano ABC¹, Agniezka Sekula disse que “a integração é baseada em tentar lembrar, tentar se reconectar com aquela experiência para conseguir processá-la”.¹ A pesquisadora acredita que, com as gravações, o paciente, e, consequentemente, o terapeuta, terão mais facilidade em mergulhar no processo terapêutico.


Para Prash Puspanathan, a ideia da Enosis é usar a RV como uma ferramenta para que pacientes e terapeutas não dependam apenas da criação de uma narrativa linear durante a jornada terapêutica – algo comum em uma sessão de terapia convencional, baseada exclusivamente na linguagem verbal.


Através dessa imersão multissensorial, o psiquiatra acredita que o melhor uso da tecnologia seria cuidar de detalhes e ruídos que os terapeutas não deveriam ter que se preocupar em uma sessão, a fim de que, “assim, esses profissionais possam focar no que fazem de melhor: o engajamento terapêutico, a aliança e a conexão com o paciente”, disse Prash em entrevista ao podcast Psychedelics Today².


Segundo ele, “tentar identificar temas na sua vida, entender como eles se conectam e como se interrelacionam é um pilar que aparece em praticamente todas as abordagens terapêuticas. Os espaços de RV te permitem explorar esses temas em um ambiente multissensorial e sem a necessidade de criar uma narrativa linear, ou seja, explorando tudo de forma mais desconexa, livre. E isso se parece muito mais com a forma que as coisas realmente acontecem com a gente”.


Fora isso, Prash acredita que os terapeutas teriam um entendimento muito maior da jornada individual de cada paciente. Com as gravações e um ambiente pessoal de RV, os profissionais poderiam relembrar os processos com mais facilidade: “Assim você pode continuar de onde parou, o que não é sempre o caso, já que não podemos esperar que um terapeuta relembre a história de dezenas de pacientes com detalhes vívidos”, diz Prash.


A Enosis também testou seu software em quatro voluntários de um retiro psicodélico na Holanda. Apesar da falta de evidências mais robustas, Sekula acredita que o experimento reforçou a ideia de que gravações de vozes podem ser ferramentas importantes para a jornada dos pacientes. Na ocasião, alguns voluntários afirmaram que o recurso de poder ouvir os relatos em sua própria voz, com a carga emocional do momento da sessão, os ajudou a relembrar e refletir com mais clareza sobre suas experiências.


Foi com essa ideia que Agniezka figurou entre os especialistas escolhidos para palestrar no painel sobre psicodélicos e RV no SXSW. Ali, a discussão predominante foi a potencial aplicação dessa tecnologia como auxiliar na terapia psicodélica, e como esse tipo de combinação poderia facilitar a capacitação de terapeutas especializados em PAP.


Essa preocupação com a capacitação profissional não é uma pauta recente. O protocolo padrão de PAP, apesar de ter bons resultados clínicos, apresenta uma barreira considerável quando o assunto é treinamento de novos terapeutas.


Esse é um dos interesses do neurocientista Walter Greenleaf, desenvolvedor de tecnologia médica da Universidade Stanford, considerado um dos pioneiros na integração de RV e medicina digital. Greenleaf também é consultor científico da FireflyVR, outra empresa que aposta na área. Como afirmou no SXSW, no modelo com RV, a presença do terapeuta continua sendo um pilar necessário para o processo terapêutico, mas o trabalho desses profissionais — assim como a jornada de cura dos pacientes — seria otimizado através da integração com as ferramentas tecnológicas. Segundo Greenleaf, “para ser efetivo e ser usado com segurança, a PAP depende de alto engajamento, suporte e supervisão clínica feita por profissionais treinados”. O neurocientista acredita que o caminho para apoiar o uso de psicodélicos na terapia está num maior aproveitamento dos avanços tecnológicos.


A ideia de que a implementação da RV poderia facilitar o treinamento de novos terapeutas provavelmente vem da premissa de que os espaços criados pela tecnologia seriam uma forma mais integrada e eficaz de consolidar informações importantes para o processo terapêutico. Por isso, para Greenleaf, usar a RV poderia ajudar e consequentemente otimizar o trabalho do terapeuta além de facilitar a capacitação desse tipo de profissional.


Matrix psicodélica


Uma outra forma bem mais ousada de aplicar a inovação foi testada em uma pesquisa³, publicada no periódico Frontiers in Psychiatry por pesquisadores da Universidade de Tartu, na Estônia, em 2023. Através da RV, eles desenvolveram uma experiência que busca simular os efeitos subjetivos das substâncias psicodélicas. A ideia é que essas experiências simuladas produzam efeitos terapêuticos reais, semelhantes aos das terapias psicodélicas propriamente ditas.


Uma das principais razões para o nosso estudo é a necessidade de novos métodos para tratar os sintomas depressivos”, explicaram os autores Karl Kristjan Kaup e Kadi Tulver, em uma entrevista ao PsyPost. “Embora a PAP seja promissora, ela é contraindicada para certos segmentos da população, e as restrições regulatórias em vários países dificultam a implementação de tais intervenções. A RV, por outro lado, oferece vários benefícios, como segurança, acessibilidade e facilidade de administração, tornando-a uma opção viável para ambientes terapêuticos da vida real”.


Os pesquisadores criaram um programa chamado Psyrreal, que simula 19 ambientes psicodélicos diferentes baseados em formas e padrões abstratos, os quais produzem experiências que variam entre 30 segundos e dois minutos, com uma duração total de 45 minutos. No total, 13 pessoas fizeram parte do experimento, os quais passaram por duas fases em dias diferentes: 1) na primeira, foi realizada uma demonstração do modelo de RV, incluindo uma meditação guiada; 2) na segunda, além da meditação, realizou-se a experiência completa com o Psyrreal, seguida por uma sessão com o psicólogo.


De acordo com os resultados da pesquisa, os participantes mostraram reduções significativas nos sintomas da depressão duas semanas após o experimento. “Nosso estudo fornece evidências preliminares de que a realidade virtual pode ser promissora como tratamento para a depressão”, explicaram Kaup e Tulver, ao PsyPost⁴. Apesar de não ser possível concluir se a experiência promovida pelo programa se assemelha a uma experiência típica com psicodélicos, os pesquisadores afirmaram que: “Nossos resultados sugerem que as experiências de RV têm o potencial de ir além do mero entretenimento e recreação, oferecendo benefícios terapêuticos e experiências transformadoras”.


De qualquer forma, esses resultados ainda são muito preliminares, e a pesquisa em questão foi realizada sem grupo controle e com apenas 13 participantes diagnosticados com depressão leve à moderada.


A RV pode estragar o bolo psicodélico?


O foco dos empreendedores, no entanto, é no uso da RV como uma ferramenta auxiliar à PAP, como foi possível observar no SXSW. Mas nem todos são otimistas em relação ao tema. Rick Doblin, fundador e diretor-executivo da MAPS (Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos) — que está à frente dos mais importantes estudos sobre MDMA nos EUA — acredita que esse tipo de tecnologia não vai ser tão precisa a ponto de realmente auxiliar os processos terapêuticos catalizados pelas experiências psicodélicas. Na verdade, segundo ele¹, a própria imaginação humana é uma ferramenta mais precisa para se conectar com o “eu” interior do que os ambientes virtuais replicados pela tecnologia.


De acordo com Doblin, a realidade virtual promete resolver um problema que talvez nem exista. O argumento central do fundador da MAPS foca nos resultados clínicos expressivos dos tratamentos psicodélicos sem RV. No artigo da ABC¹, ele relembra o mais recente estudo da MAPS com MDMA para o tratamento de transtorno de estresse pós- traumático, no qual aproximadamente 80% dos participantes apresentaram resultados que variam entre uma diminuição significativa dos sintomas do transtorno até a sua ausência total após a realização do tratamento. A integração, até agora, não se mostrou uma variável problemática nesse tipo de estudo.


Não é fácil ignorar o desconforto que reside na ideia por trás da premissa de apostar em um protocolo tecnológico multiplataforma, enquanto a boa e velha psicoterapia vêm mostrando resultados satisfatórios. Uma vez que o protocolo atual de PAP já é visto como uma tecnologia inovadora, adicionar um novo ingrediente – a realidade virtual – a essa mistura pode estragar o bolo?


Três mulheres em ambiente com luzes coloridas utilizando óculos de realidade virtual durante o evento SXSW.

Imagem: Stephen Olker/SXSW.


Em um artigo intitulado “Virtual Reality as a Moderator of Psychedelic-Assisted Psychotherapy” (Realidade Virtual como um Moderador na Psicoterapia Assistida Por Psicodélicos)⁵, publicado na revista Frontiers in Psychology, em 2022, os próprios Sekula e Puspanathan, fundadores da Enosis, concluem que “a aplicação potencial da RV na modulação da PAP exige mais exploração e uma abordagem baseada em evidências tanto para o design quanto para a implementação”, reforçando possíveis efeitos colaterais como “superestimulação sensorial, náusea digital, desencadeamento de memórias de eventos traumáticos passados, bem como distração da experiência interior ou forte influência em seu conteúdo”.


Recentemente, a Enosis anunciou uma parceria com a Ovid, uma clínica de Berlin, especialista no uso de cetamina para o tratamento de transtornos mentais. A ideia é oferecer a PAP com RV aos pacientes que se sentirem compelidos a testar a tecnologia.


Com a abertura das leis da Austrália, que se tornou o primeiro país do mundo a regulamentar o uso de psilocibina e MDMA, diversas clínicas já demonstraram interesse em seguir o mesmo caminho da Ovid. Ainda assim, existe uma longa jornada pela frente para investigar se a tecnologia pode se tornar uma aliada ou até superar o que já vem sendo feito em termos de integração psicodélica.


Na verdade, mesmo se a inovação cumprir a promessa de facilitar o processo terapêutico, ainda é difícil imaginar a RV desempenhando um papel importante na implementação da PAP, já que, caso isso aconteça, outra barreira surgirá pelo caminho: tornar o modelo acessível para a maior parte da população adoecida.


Por enquanto, a resposta para essas indagações não está em nenhuma das vinte mesas que falaram sobre psicodélicos no festival de inovação SXSW em 2023, ou em qualquer outro lugar. No estágio atual de pesquisa, qualquer afirmação mais contundente não passa de especulação. De todo modo, independente dos resultados futuros, ao focalizar no processo terapêutico, esse tipo de discussão levanta questões importantes acerca do papel da integração psicodélica, um pilar fundamental da experiência com substâncias alteradoras da consciência.


Autor

Minibio e foto do autor, Bruno de Pauw.

Referências


1. Purtill, J. Virtual reality plus psychedelics are being trialled in therapy. Are they effective?. ABC: https://www.abc.net.au/news/science/2023-02-20/virtual-reality-psychedelic-therapy-psychology-mental-health/101983510


2. Agnieszka Sekula, Dr. Prash P. Psychedelics & VR: Novel Experiences and Altered States. Podcast Psychedelics Today. Acessado em 30 de junho de 2023:


3. Kaup KK, Vasser M, Tulver K, Munk M, Pikamäe J, Aru J. Psychedelic replications in virtual reality and their potential as a therapeutic instrument: an open-label feasibility study. Front Psychiatry. 2023 Mar 1;14:1088896. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36937731/


4. Dolan, E. (2023). Psychedelic replications in virtual reality show potential in treating depressive symptoms. Acessado em 16 de junho de 2023:


5. Sekula AD, Downey L, Puspanathan P. (2022). Virtual Reality as a Moderator of Psychedelic-Assisted Psychotherapy. Front Psychol. 2022 Mar 4;13:813746. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35310225/




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