• Nathan Fernandes

A ayahuasca e os caminhos da imprensa psicodélica

Atualizado: 27 de mai.


Resumo: A percepção pública molda a forma como a ayahuasca é representada na mídia ou é a mídia que molda a percepção pública? Para entender as representações do chá amazônico na imprensa, este artigo descreve uma breve história da relação dos psicodélicos com os veículos de comunicação nos EUA e no Brasil. E reflete sobre a forma como a bebida de origem amazônica é representada hoje.


 

Henry Luce viu Deus em um campo de golfe. É isso o que escreve um dos biógrafos do empresário norte-americano, ao narrar uma experiência que ele teve com LSD. Em outra ocasião lisérgica, Luce afirmou ter conduzido uma orquestra imaginária em seu jardim (Sheed, W., 1982). Poderiam ser apenas experiências psicodélicas comuns se Henry Luce não fosse o magnata mais importante da imprensa norte-americana do século 20. Em uma época na qual não havia internet, os assuntos mais comentados eram aqueles que apareciam nas páginas de revistas criadas por ele, como a “Time” e a “Life”, algumas das publicações mais influentes da época.


Henry Luce, magnata de revistas estadunidense que foi chamado de "o cidadão privado mais influente da América" (Imagem: Literary Hub).



É possível dizer que o interesse declarado de Luce pelos psicodélicos ajudou a moldar parte da opinião pública sobre essas substâncias, que começaram a ganhar evidência ainda na década de 1940. De acordo com o ativista Abbie Hoffman, “Henry Luce fez mais para popularizar o LSD do que Timothy Leary” (Brinkley, A., 2010).


Foi na revista “Life” que o banqueiro e micologista amador R. Gordon Wasson escreveu o icônico relato de dezessete páginas sobre sua experiência com cogumelos mágicos, no México, comandada pela xamã Maria Sabina. Publicado em 1957, a reportagem “Seeking the Magic Mushroom” é tida como o primeiro registro de um ritual com cogumelos feito por um ocidental para um grande público. A repercussão do artigo foi imediata e ajudou a validar a percepção dos psicodélicos como substâncias potencialmente valiosas.


Capa da revista Life em maio de 1957 e a reportagem "Seeking the magic mushroom".



Na época, o escritor Aldous Huxley já havia lançado o ensaio “As Portas da Percepção”, que ajudou a consolidar o interesse dos psicodélicos por uma elite intelectualizada. Além disso, desde a síntese do LSD pelo químico suíço Albert Hofmann, em 1938, as pesquisas com essas substâncias já ganhavam a atenção da mídia, ajudando a dissolver o pânico moral do uso de substâncias promovido nos anos anteriores, em grande parte, por agentes como Harry J. Anslinger, comissário do Departamento Federal de Narcóticos.


Mas a empolgação psicodélica na imprensa não durou muito. Já no fim dos anos 1960, notícias que contribuíam para a percepção de que os psicodélicos eram nocivos passaram a ganhar a atenção da mídia. Em 1967, o geneticista Maimon Cohen, da Universidade de Nova York, publicou um estudo na “Science”, afirmando que cromossomos de células sanguíneas sofriam deterioração quando entravam em contato com LSD (Stephen, 2015). No mesmo ano, os jornais norte-americanos repercutiram em massa um estudo publicado na “The Lancet” sobre “o primeiro caso documentado de um bebê nascido com defeitos congênitos depois que sua mãe tomou LSD durante a gravidez” (Stephen, 2015).


Os estudos traziam sérios problemas de metodologia. Tanto que, em 1971, uma revisão da pesquisa publicada na “Science” concluiu que “o LSD puro ingerido em doses moderadas não produz danos cromossômicos detectáveis ​​pelos métodos disponíveis”. Além disso, o número de bebês nascidos com problemas congênitos alegados por LSD não se diferenciava da média geral dos EUA. Mas o alarde já estava feito.


Artigo publicado na revista Science em 1971.



Em 1971, o então presidente norte-americano Richard Nixon declarou sua política de Guerra às Drogas, contribuindo com o fim das pesquisas com psicodélicos. A imprensa foi fundamental para propagar a ideia de que os psicodélicos são perigosos. Em uma reunião com empresários de mídia, o político afirmou: “Podemos perseguir os traficantes; podemos tratar os viciados. Mas, em última análise, a menos que estabeleçamos uma nova atitude — a começar com jovens em idades escolares — o tráfico continuará a crescer. Portanto, a educação — pela mídia, pelos jornais, pela televisão e rádio, pelos professores, e por todos os líderes de opinião — é absolutamente essencial, ou nosso programa falhará” (Stephen, 2015).


O proibicionismo norte-americano serviu de referência para os países da América Latina, tanto na política quanto na forma como a imprensa retrata o uso de drogas. As consequências disso podem ser percebidas até hoje. Mas, no Brasil, a regulamentação de um chá feito a partir de plantas amazônicas forneceu um campo novo a ser explorado pela mídia nacional.



Ayahuasca na mídia


No livro “A História Social do LSD” (2020), o jornalista e historiador Júlio Delmanto mostra como a imprensa nacional tendia a reproduzir as tendências adotadas pela imprensa estrangeira em relação à representação dos psicodélicos. O primeiro registro nacional referente a psicodélicos encontrado por Delmanto data de 10 de julho de 1955. No artigo “As estranhas visões da mescalina”, do jornal Folha da Manhã (que se tornaria a Folha de S. Paulo), o autor do texto reproduz o fascínio e a curiosidade que marcaram as primeiras representações dessas substâncias. A partir de 1965, no entanto — quando a farmacêutica Sandoz parou de fabricar e divulgar o LSD —, nota-se a amplificação de menções negativas, como uma manchete do jornal O Estado de S. Paulo, que anunciava, em 25 de outubro de 1967: “LSD traria má formação”.


Livro “A História Social do LSD no Brasil” (2020) do jornalista e historiador Júlio Delmanto.



Nas últimas décadas do século 20, o aumento do uso da ayahuasca fora do contexto indígena fez com que a bebida psicodélica também ganhasse destaque em jornais e revistas. Em um ensaio (2003), o jornalista Otávio Frias Filho (diretor de redação da Folha de S.Paulo entre os anos de 1984 e 2018), escreveu sobre sua experiência com o Santo Daime, no Céu do Mapiá. O texto é representativo porque, através da percepção de um dos jornalistas mais influentes do país, é possível ter uma ideia de como a grande imprensa compreendia o chá. Descrevendo-se como um “embaixador da Razão” que “temia fraquejar”, Frias Filho tenta dar um enfoque antropológico ao texto, mas, em vários momentos, deixa escapar seus julgamentos, como quando chama a dogmática daimista de “parafernália espiritual”.


O capítulo "Viagem ao Mapiá" do livro "Queda livre" de Otávio Frias Filho, no qual narra sua experiência com o Santo Daime.



É assim, como uma curiosidade excêntrica, que o uso da bebida é retratado em diversas matérias. A comunicadora Jussara Aparecida Santos de Assis constata isso em sua pesquisa de pós-doutorado na PUC-Minas. No trabalho, ela selecionou reportagens sobre ayahuasca publicadas na Folha de S. Paulo e no portal de notícias G1, entre os anos de 2006 e 2019, categorizando-as em quatro tópicos: 1) cultural indígena/artístico; 2) religioso institucional; 3) associação à droga ilícita; 4) pesquisas científicas.


Na conclusão, a pesquisadora nota que “os meios de comunicação reafirmam os estigmas nos grupos e indivíduos que consomem a ayahuasca e cristalizam um quadro ideólogo de difícil desmontagem”, principalmente “quando se fala nos grupos indígenas”. De acordo com Assis, ao associarem ainda o chá ao uso de entorpecentes, os veículos desqualificam a bebida e seus grupos.


Essa representação enviesada pôde ser vista no caso de maior repercussão sobre o assunto que já ocorreu no país: a morte do cartunista Glauco Villas Boas, em 2010. O assassinato, que aconteceu em âmbito religioso, envolvendo membros do Santo Daime, no mesmo ano em que se discutiu a regulemantação do uso religioso do chá, serviu de desculpa para que publicações como a revista Veja, crítica notória da regulamentação, pudessem expor sua intolerância. Na chamada de capa da maior publicação semanal do país, lia-se: “O psicótico e o daime: até que ponto se justifica a tolerância com uma droga usada em rituais de uma seita?”.


Capas das revistas Veja e Época em 2010, dando destaque ao caso da morte do cartunista Glauco Vilas Boas.



Para Assis, no entanto, o chamado Renascimento Psicodélico traz uma uma mudança de percepção. A partir do momento em que a imprensa percebe o potencial terapêutico da ayahuasca, bem como seu caráter mercadológico, outros significados passam a ser imputados à bebida. “Significados que demonstram que seu uso legítimo deva ser industrializado e que ‘beneficie’ um número maior de pessoas de forma racional. E não que fique presa a tradições primitivas e superstições”, escreve a pesquisadora.


Mas a chegada da ayahuasca nos grandes centros urbanos também contribuiu para que os próprios jornalistas ganhassem mais consciência sobre questões como a apropriação de conhecimentos indígenas, tornando este um ponto fundamental na cobertura séria sobre o tema. Essa discussão foi tema do "Encontros Psicodélicos #7: Psicodélicos na mídia - Abrindo as portas da redação". Como afirma a educadora e artista Daiara Tukano (2021), “talvez mais importante que decifrar a química do kahpi, como funciona no cérebro e quem pode comprar mais ou vender melhor seja aprender a respeitar e celebrar nossa diversidade.”


Em sua descrição sobre os efeitos do daime, o jornalista Otávio Frias Filho narra uma miração na qual constelações se afastam numa trajetória espiralada até se transformarem na galáxia inteira. “Estava feliz e assustado ao mesmo tempo: o Santo Daime me permitira espiar pela 'fresta''', escreveu.


A mudança de percepção e a preocupação com novos ângulos que não reforcem o pânico moral, talvez, possam ser a fresta que o jornalismo precise entrar para realizar uma cobertura midiática mais aprofundada, e em harmonia com a complexidade do campo ayahuasqueiro. Afinal, como escreve Assis, as representações na mídia não são estagnadas. “Compreendemos que os enquadramentos midiáticos são móveis, flexíveis e estão em constante desenvolvimento ao longo do tempo. Sendo, portanto, possível a reivindicação por novos modos de representação”.


 

Autor


Referências

  • Sheed, W. (1982) Clare Boothe Luce. New York: E. P. Dutton.

  • Stephen, S. (2015) Acid Hype: American News Media and the Psychedelic Experience. Illinois: University of Illinois Press.

  • Delmanto, J. (2020) História Social do LSD no Brasil: os Primeiros Usos Medicinais e o Começo da Repressão. São Paulo: Editora Elefante.

  • Filho, O. F. (2003) Queda livre: Ensaios de risco. São Paulo: Companhia das Letras.

  • Tukano, D. (2021) Ayahuasca e os desafios dos conhecimentos indígenas diante da globalização. Acessado em 12/05/2022, neste LINK.



129 visualizações0 comentário