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Capitalismo e terapias psicodélicas

Atualizado: Ago 21

Autora convidada: Tharcila Chaves, PharmD PhD*





O futuro da psiquiatria é pavimentado pela psicodelia. Embora drogas psicodélicas sejam baratas, os tratamentos que as utilizam são e continuarão sendo muito caros. Seja em um retiro de ayahuasca ou em uma clínica particular, o sistema é o mesmo: capitalismo, isto é, transformar tudo em mercadoria. Independente da intenção do xamã ou do psicólogo, não devemos esquecer que ambos são trabalhadores inseridos nesse sistema. Abrir e manter um consultório envolve o pagamento de altas taxas. Montar um retiro no meio da Cordilheira dos Andes também. As start-ups psicodélicas já existem aos montes. Tem até gente querendo patentear uma forma de sintetizar psilocibina. E, claro: a indústria farmacêutica está forte no jogo. Porque sim, é assim que aquela revolução psicodélica colorida e cheia de boas intenções está progredindo: como mais uma peça do sistema capitalista.


Eu sou farmacêutica e quero abrir minha clínica. Eu quero começar oferecendo terapias com o uso de maconha e ketamina, porque são as drogas psicodélicas oficialmente aprovadas para o tratamento de alguns transtornos mentais e físicos aqui na Holanda, país em que habito há 7 anos. Para tornar a medicina psicodélica acessível, ela terá que seguir os moldes de qualquer outro tratamento médico. Um alvará do governo é indispensável, uma equipe multidisciplinar de profissionais de saúde também, assim como uma estrutura física complementarmente adaptada para funcionar como um estabelecimento de saúde. Tudo isso fica caríssimo. As drogas em si não são muito caras, mas a estrutura necessária para administrá-las de forma segura e conforme a lei é um investimento alto. As clínicas de ketamina dos Estados Unidos cobram entre 400 e 1000 dólares por sessão (sessão = uma administração intravenosa de ketamina monitorada por um profissional de saúde, sem psicoterapia). Esse preço é muito superior ao preço de um frasco de ketamina (em torno de 20 euros), que rende para várias sessões. O uso de ketamina fora de um ambiente controlado, como uma clínica, é perigoso por causa da qualidade duvidosa da substância obtida no mercado ilegal e também por causa do seu potencial em criar dependência. Essa preocupação também existe com a maconha.



Sessão de administração intravenosa de ketamina: Um homem está deitado em uma poltrona, os olhos estão cobertos com uma máscara, e ele está acompanhado de um médico todo vestido de azul.

Nos Estados Unidos, uma sessão de administração intravenosa de ketamina monitorada por um profissional de saúde pode custar entre 400 e 1000 dólares.



O tratamento de transtornos psiquiátricos é muito complicado. Diferente de uma infecção, em que o tratamento com antibiótico resolve o problema, em transtornos que afetam a nossa mente, o manejo é intricado. Melhores resultados são alcançados quando se combina psicoterapia e tratamento farmacológico. Do lado farmacológico, as opções atuais possuem várias limitações (por exemplo, os antidepressivos não funcionam em um terço dos casos; tranqüilizantes, como o diazepam, também podem desencadear dependência), porém é comum a espera de um milagre: que uma pílula nos livrará de nossos tormentos, sem maiores esforços da nossa parte. E então entra a psicoterapia: o trabalho que nós temos que fazer para conseguirmos viver com aquilo que nos aflige. E esse trabalho é muito difícil. Confrontar nossas emoções, traumas e sentimentos dá trabalho e leva tempo. E é muito caro também. Os planos de saúde são falhos na cobertura de sessões de psicoterapia (o meu, por exemplo, só cobre 9 sessões em 1 ano). Psicoterapia é um privilégio.


"Os planos de saúde são falhos na cobertura de sessões de psicoterapia (o meu, por exemplo, só cobre 9 sessões em 1 ano). Psicoterapia é um privilégio."

Mas falando de uma situação ideal (onde todas as ferramentas estão disponíveis), sessões de psicoterapia combinadas com uso de drogas psicoativas é o que nós recomendamos. Os novos tratamentos que combinam psicoterapia e drogas psicodélicas estão mostrando bons resultados e são uma tendência, tanto fora como dentro da medicina convencional. Todas as fases desse processo têm um custo alto. Do treinamento de profissionais aptos para esse tipo de intervenção (um curso de uma semana para o uso de MDMA no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático custa 7 mil dólares), ao paciente que paga 500 dólares por sessão. Para que as terapias psicodélicas sejam acessíveis, elas terão que enfrentar todos os obstáculos que qualquer nova terapia enfrenta. Com o adicional de serem substâncias cheias de estigma, por causa do uso recreativo e abusivo.



Pessoa segurando uma cápsula de MDMA branca, dentro de um saquinho.

Um curso de uma semana sobre o uso de MDMA no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático custa 7 mil dólares. Já o tratamento, chega a custar ao paciente 500 dólares por sessão (Foto: Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies).



Do mercado negro ao jaleco branco, o interesse por terapias psicodélicas só vem crescendo. É um mercado em ascensão em todas as suas vertentes. Eu recebo freqüentemente mensagens de pessoas interessadas em tomar ayahuasca na América do Sul (turismo psicodélico). Também acompanho pessoas que preferem usar psicodélicos em casa – é o que chamamos de trip-sitting, isto é, nós garantimos um ambiente tranqüilo e seguro para que as pessoas possam obter o melhor da experiência psicodélica. É assim que as drogas psicodélicas vêm fazendo a sua revolução na maneira como nós nos relacionamos com a nossa mente, com o nosso corpo e com o nosso planeta. Meu discurso é bicho-grilo e paz-e-amor, sim. No entanto, como profissional de saúde e empreendedora nessa área, meu maior interesse é tornar essas terapias acessíveis. E, para isso, tenho que lidar com os clássicos do capitalismo. Para mudar paradigmas, usemos o que é convencional e aceito a nosso favor.




Tharcila Chaves





*Tharcila Chaves é farmacêutica e bioquímica, mestre em Sociologia e Medicina do Abuso de Drogas pela Universidade Federal de São Paulo e doutora em Psicofarmacologia pela Universidade de Groningen, na Holanda. Atualmente, trabalha como terapeuta psicodélica e trip-sitter, e está buscando financiamento para sua clínica psicodélica.

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