Prensadão #36: Hipnose e meditação com psicodélicos; e microdose de cogumelos
- psicodelicaciencia

- há 4 dias
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O Prensadão do CP está de volta para falar dos estudos que mais chamaram a nossa atenção nas últimas semanas.
Nesta edição, o psicofarmacologista Lucas Maia, PhD, destacou o artigo do pesquisador inglês David Nutt, referência no campo, que propõe uma padronização terminológica para os psicodélicos. Ele também trouxe um relato de comportamento suicida durante um ensaio com ayahuasca, além de pesquisas sobre a relação entre psicodélicos, hipnose e meditação, e um estudo que investigou as alterações cerebrais em usuários de ayahuasca a longo prazo. Boa leitura!
O artigo, assinado pelo neuropsicofarmacologista David Nutt e sua equipe de colaboradores, propõe uma padronização terminológica para o campo da ciência psicodélica. O texto apresenta um sistema de nomenclatura baseado em farmacologia, efeitos subjetivos, doses e aplicações terapêuticas, distinguindo categorias como psicodélicos serotoninérgicos, glutamatérgicos e atípicos. Define níveis de dose — micro, mini, midi e macro dose — e recomenda um modelo terapêutico mínimo de três fases: preparação, administração e integração, visando maior segurança e clareza científica.
Neste relato de caso, um participante de 18 anos, com depressão resistente ao tratamento, desenvolveu comportamento suicida agudo após a terceira de quatro sessões de ayahuasca em um ensaio clínico conduzido no Brasil, apesar de não apresentar histórico prévio de ideação suicida. A equipe interveio prontamente, garantindo monitoramento contínuo e contato com o psiquiatra responsável. Apesar do episódio transitório, o participante optou por prosseguir e apresentou melhora global dos sintomas após a última sessão. O caso destaca a necessidade de vigilância rigorosa em estudos clínicos com psicodélicos e suscita debate sobre a condução de pesquisas sem acompanhamento psicoterapêutico.
Dois ensaios clínicos randomizados e duplo-cegos investigaram os efeitos da microdosagem de trufas com psilocibina sobre cognição, humor e bem-estar. A maioria dos resultados não mostraram diferenças significativas entre o grupo ativo e o placebo, houve apenas alguns efeitos iniciais em testes que mediram cognição social e flexibilidade psicológica, embora tenham perdido significância após correções estatísticas. Participantes relataram experiências predominantemente positivas, mas com desconfortos corporais leves. O estudo questiona os supostos benefícios cognitivos da microdosagem e sugere explorar variações individuais de resposta.
Um estudo realizado no Brasil (UFRJ) investigou os efeitos do uso prolongado de ayahuasca sobre a resiliência psicológica e a reatividade emocional cerebral. Em comparação ao grupo controle, usuários de longa data apresentaram maior resiliência e alterações em áreas cerebrais relacionadas à regulação emocional, sugerindo que a prática terapêutica da ayahuasca pode promover mudanças neurofuncionais benéficas à saúde mental, potencialmente auxiliando no enfrentamento de estresse e na promoção do bem-estar psicológico.
O estudo investiga como a meditação e os psicodélicos influenciam conjuntamente a conectividade cerebral. Ambos modulam circuitos ligados à atenção, autoconsciência e regulação emocional, sugerindo efeitos sinérgicos na promoção de estados mentais expansivos e potenciais benefícios terapêuticos. Os autores defendem que integrar práticas contemplativas a intervenções psicodélicas pode otimizar resultados clínicos e ampliar a compreensão neurobiológica de experiências místicas e transformadoras.
O autor compara as modificações da consciência induzidas por hipnose e por psicodélicos, defendendo que estados mentais não devem ser definidos pelo tipo de intervenção que os induz. Fatores como absorção e abertura à experiência preveem a resposta em ambos os contextos. As semelhanças fenomenológicas são vastas, mas psicodélicos tendem a provocar experiências mais intensas, duradouras e menos controláveis, com riscos e potencial terapêutico maiores.
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Vale destacar que, embora os resultados sejam promissores, a maioria dos estudos com psicodélicos ainda está em fases iniciais. Tratamentos para transtornos como depressão e ansiedade devem ser feitos em contexto clínico. Se você é uma pessoa saudável e tem interesse em vivências psicodélicas, procure sempre orientação de pessoas confiáveis, em contextos seguros, adequados e com o devido preparo.




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