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Cultivo de Psychotria viridis e a sustentabilidade da ayahuasca

Autora convidada: Camila Dias L. dos Santos*, MSc.


RESUMO: Estudo investiga o efeito de tipos diferentes de ambientes sobre o crescimento de mudas de Psychotria viridis, uma das plantas da ayahuasca. Os resultados mostram variações na morfologia das plantas cultivadas a pleno sol e sob sombreamento arbóreo, contribuindo para a discussão da sustentabilidade da produção de ayahuasca.


Conhecida popularmente como “rainha” ou “chacrona”, a Psychotria viridis é uma espécie pertencente à família Rubiaceae (a mesma do café) e ocorre naturalmente nos ambientes quentes, úmidos e sombreados da floresta amazônica. As folhas da rainha são utilizadas juntamente com o caule do cipó Banisteriopsis caapi, também conhecido como “mariri” ou “jagube”, para o preparo da bebida psicoativa mundialmente conhecida como ayahuasca.


Muda de Psychotria viridis. Foto: L. F. Tófoli (2017).



Atualmente, no Brasil, plantações de P. viridis estão presentes em um vasto espectro de condições ambientais, como regiões semi-áridas, montanhosas e frias (Cavalcante et al., 2018). Sabe-se que o aumento do cultivo da rainha está intimamente relacionado à expansão do uso da ayahuasca nas áreas urbanas, onde grupos comprometidos com a sustentabilidade e a preservação desta espécie mantêm o plantio de algumas variedades, sendo a “cabocla” a principal delas. Mas como manter uma espécie amazônica fora do seu ambiente natural?


Detalhe de folhas e frutos de Psychotria viridis, variedade “cabocla”. Foto: L. F. Tófoli (2017).



Intrigada com essa pergunta, no meu estudo de mestrado – desenvolvido no Centro de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – procuramos responder: qual é a melhor condição de cultivo de P. viridis? Como esta espécie se adapta aos diferentes ambientes? Quais são os sinais de estresse fisiológico da rainha? O que muda em sua morfologia? Para isso, observei como um grupo de clones de Psychotria viridis se adaptou em dois ambientes distintos.


Em janeiro de 2016, iniciei a produção de mais de duzentas mudas a partir de uma técnica chamada estaquia foliar, que consiste em gerar novas plantas a partir das folhas. Após alguns meses, as folhas enraizadas emitiram brotos que se tornaram indivíduos com a mesma característica genética da planta-mãe. Ou seja, todas as mudas do experimento foram “irmãs gêmeas” da mesma matriz, e por isso são chamadas de clones.


Cultivo de P. viridis: estaca foliar com brotos desenvolvidos (esquerda); clones na casa de vegetação do CPQBA/UNICAMP (direita). Fotos: C. Dias (2016).



Foram dois anos de trabalho até que as mudas estivessem prontas para o transplante e, em 2018, estabelecemos dois cultivos de P. viridis no campo experimental do CPQBA: um a pleno sol e o outro sob a sombra de seringueiras (Hevea brasiliensis). Chamamos de consórcio o cultivo de espécies vegetais com diferentes portes, como árvores e verduras por exemplo, sendo uma técnica que se aplica às práticas de manejo do sistema agroflorestal (SAF). As “plantas companheiras” compõem a comunidade vegetal do plantio em SAF, e árvores de grande porte, como a seringueira, a barriguda (Ceiba glaziovii) e o jatobá (Hymenaea courbaril) são comumente utilizadas no manejo das plantas para a produção da ayahuasca. Sabemos, por isso, que as “rainhas da floresta” gostam mesmo é de sombra e água fresca, e a exposição solar direta em um contexto de cultivo isolado, por sua vez, é uma condição bastante desafiadora.


Mas como a ciência é feita de dúvidas e não de certezas, buscamos avaliar as alterações morfológicas externas dos clones de P. viridis nestes dois ambientes discrepantes. Ao longo de quatro estações, eu e um grupo de amigos voluntários acompanhamos o desenvolvimento das mudas através de medições de altura e diâmetro do caule. Nas folhas, medimos as dimensões de comprimento e largura, determinamos o teor de umidade foliar e contamos o número de domácias. Em P. viridis, as domácias são popularmente conhecidas como “guias” ou “velas” e consistem em estruturas foliares com importante função ecológica mutualística no controle de fungos. Ou seja, as domácias nas folhas abrigam ácaros, os quais se alimentam de fungos, de forma que tanto a planta como os ácaros se beneficiam (Miranda et al., 2020).


Vista de domácias em folha de P. viridis. Na seta: domácia do tipo cripta, localizada na face inferior da folha, junto à nervura primária (a central). Foto: C. Dias (2021).



A diferença entre cada grupo de plantas foi notável. As mudas que cresceram no ambiente a pleno sol apresentaram alterações morfológicas significativas: enquanto o diâmetro do caule dessas plantas era maior, o comprimento/largura das folhas e o número de domácias eram menores do que nas plantas que cresceram no ambiente com sombra. Além de serem menores, as folhas das plantas a pleno sol tornaram-se mais grossas e amareladas.


Efeitos das práticas de manejo de P. viridis: plantas no campo a pleno sol (esquerda); planta em campo de sombra, em consórcio com seringueiras em sistema agroflorestal (direita). Campo experimental/CPQBA. Fotos: C. Dias (Outubro/2020).



A diminuição no número de domácias que verificamos nas plantas a pleno sol é algo que também já foi observado em um estudo anterior (Miranda et al. 2020) e em observações compartilhadas no domínio popular. Dependendo do ambiente, as “guias” nas folhas das rainhas podem sumir. Além disso, o estresse fisiológico proporcionado por diferentes fatores no ambiente aberto, como alta irradiação e elevadas temperaturas, tornaram as plantas mais susceptíveis aos ataques de insetos herbívoros, como constatamos posteriormente no experimento.


Como esperado, o cultivo de P. viridis em condição de monocultura, em pleno sol, demanda contínuo manejo e controle hídrico para a sobrevivência das plantas. Já na condição de consórcio com espécies arbóreas, como no caso do campo com sombra de seringueiras, verificamos que as plantas foram favorecidas pelo microclima e aporte de energia proporcionados pela comunidade vegetal, sobrevivendo durante os meses de estiagem sem irrigação ou chuva. Vimos, sem surpresa, que as práticas desenvolvidas no sistema de cultivo agroflorestal são indicadas para a cultura de P. viridis, pois além de repercutir em benefícios agrícolas, essa forma de manejo tem uma importância ecológica fundamental, uma vez que sustenta a existência de um complexo ecossistema e contribui para a biodiversidade local.


Compreender os mecanismos adaptativos das plantas e como eles se manifestam em sua morfologia pode auxiliar muito o processo de aprimoramento das condições de cultivo, bem como a identificação correta das espécies. O reino vegetal é composto por seres dinâmicos e extremamente flexíveis, e por isso é prudente considerar também as condições ambientais no momento de reconhecer uma espécie. Com alegria, nós buscamos colaborar com os conhecimentos já existentes sobre a P. viridis registrando achados que podem contribuir para o entendimento das condições de cultivo e o desenvolvimento dessa planta amazônica.


Com a crescente expansão mundial do uso da ayahuasca, é cada vez mais importante elaborarmos ações em direção à sustentabilidade do cultivo da Psychotria viridis – assim como de Banisteriopsis caapi. Enalteço e reverencio a grandiosa contribuição que os conhecimentos tradicionais e de domínio popular oferecem na iluminação de tantas questões discutidas academicamente e em especial neste estudo, onde pudemos ampliar o nosso conhecimento sobre essas plantas e embasar o desenvolvimento de estratégias mais sustentáveis para a produção da ayahuasca.



AUTORA



REFERÊNCIAS


Cavalcante, A. D.; et al. (2018). Influence of Environmental Factors and Cultural Methods on the Content of N, N-Dimethyltryptamine in Psychotria viridis (Rubiaceae). Journal of the Brazilian Chemical Society, 29 (6), 124https://doi.org/10.21577/0103-5053.20170221


Corrêa, M. A. (2011). Distribuição, cultivo, sustentabilidade e conservação das espécies utilizadas na preparação da bebida Hoasca. In Bernardino-Costa, J. (ed.) Hoasca: ciência, sociedade e meio ambiente. (Campinas, SP: Mercado de Letras).

Miranda, O. F. de; et al. (2020). Influence of environment on the leaf morpho-anatomy and histochemical of the ayahuasca leaf: Populations cultivated in extra-Amazonian regions. Acta Scientiarum. Biological Sciences, 42, (1),1-12. https://doi.org/10.4025/actascibiolsci.v42i1.50369


Santos, C. D. L. (2021) Avaliação do manejo de população clonal de P. viridis Ruiz & Pav. (Rubiaceae) segundo as condições ambientais e sazonalidade. Dissertação. (Campinas, SP: Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Ciências Farmacêuticas). Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/364334





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