LSD: quanto a dose influencia seus efeitos?

Atualizado: Abr 11




Por Flávia Zacouteguy Boos, MS.



O LSD, sigla para a dietilamida do ácido lisérgico, é um dos psicodélicos clássicos mais potentes. Isso significa que baixíssimas quantidades, menos que um vigésimo de grama, são capazes de produzir efeitos perceptíveis. Foi sintetizado em 1938 pelo químico suíço Albert Hoffman (1906-2008). Desde a década de 1940, seu potencial terapêutico é investigado e acredita-se que seja uma substância que possa ser utilizada na terapia assistida por psicodélicos futuramente. Para isso, é fundamental que se entenda a relação entre a dose consumida e seus efeitos, além da segurança de uso em termos fisiológicos.


Um estudo científico recente, publicado no início de 2021 por um grupo de pesquisadores da Suíça, buscou comparar os efeitos de diferentes doses de LSD em pessoas saudáveis, que haviam utilizado outras drogas ilícitas menos de dez vezes na vida, exceto maconha.


A pesquisadora Friederike Holze e seu estudo publicado na revista Neuropsychopharmacology.



Neste estudo, 16 voluntários de 25 a 52 anos (8 mulheres e 8 homens) participaram de seis sessões experimentais em que foram acompanhados durante 25 horas em um quarto tranquilo de hospital. As sessões aconteceram com intervalos de 10 dias entre cada uma. No início de cada sessão, os participantes receberam por via oral uma entre quatro doses de LSD [25, 50, 100 ou 200 microgramas (µg)] e outra substância, que poderia ser uma substância sem efeito psicoativo (placebo) ou ketanserina (um bloqueador dos receptores de serotonina 5-HT2A, os quais são ativados pelo LSD). O objetivo deste desenho experimental foi identificar os efeitos produzidos por diferentes doses do LSD no mesmo grupo de pessoas (cada uma recebeu as quatro doses em sessões separadas). Além disso, buscou avaliar se a ketanserina impediria esses efeitos da dose mais alta desse psicodélico (200 µg) em comparação com a substância placebo, já que estudos anteriores apontaram que esses receptores são necessários para que ocorram as alterações de consciência produzidas pelos psicodélicos clássicos.


Para avaliar os efeitos subjetivos, foram utilizadas quatro questionários que avaliam estados alterados de consciência (como percepção de algum efeito da droga, positivo ou negativo, dissolução do ego, sensação de unidade, alterações visuais) e humor (como bem-estar e ansiedade) repetidas vezes ao longo da sessão. Os pesquisadores também monitoraram a pressão sanguínea, os batimentos cardíacos e a temperatura dos participantes ao longo das sessões, bem como a ocorrência de efeitos adversos. O sangue dos voluntários foi coletado repetidas vezes em 24h para avaliar a concentração de LSD e de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), uma proteína que está envolvida com mudanças físicas e funcionais no cérebro, além de formação de novos neurônios (neurogênese).



No estudo, foram utilizados questionários para avaliar estados alterados de consciência e humor. Além disso, monitoraram a pressão sanguínea, batimentos cardíacos e temperatura, e realizaram coletas de sangue para avaliar a concentração de LSD e BDNF.



Após o consumo de LSD, os voluntários começaram a perceber seus efeitos em menos de 1 hora, sendo que doses mais baixas levaram mais tempo para serem percebidas e a dose de 200 µg foi detectada em menos de 30 minutos. Já o pico dos efeitos subjetivos ocorreu entre pouco mais de 2h e quase 3h para todas as doses de LSD; quanto maior a dose, por mais tempo esses efeitos foram sentidos.


Os efeitos de alteração de consciência e humor dependeram da dose. Todas elas aumentaram as sensações positivas percebidas, sendo este o único parâmetro alterado pela dose mais baixa de LSD (25 µg); os efeitos positivos máximos foram atingidos com a dose de 100 µg, não havendo superioridade significativa com a dose de 200 µg. Alterações visuais e de sinestesia audiovisual — mistura entre audição e visão, como perceber cores através da música ou sons através de luzes —, bem características das experiências psicodélicas, foram percebidas a partir de 50 µg, sendo maior nas doses de 100 µg e 200 µg, mas sem diferença entre essas duas. A dissolução do ego, experiência que pode ser definida como a percepção de perda dos limites do próprio “eu” em contraposição a “outros” (pessoas, outros seres vivos ou objetos), ocorreu a partir da dose de 50 µg, de forma crescente.


Efeitos subjetivos negativos da substância, incluindo ansiedade, foram percebidos pelos voluntários nas sessões em que receberam as doses mais altas; a dose de 200 µg induziu tanto maior pontuação na dissolução do ego, quanto ansiedade decorrente disso quando comparado com a dose de 100 µg. Aumento da sensação de insights, sensação de unidade com o todo, experiência espiritual, sentimento de desconexão com o corpo (disembodiment) surgiu apenas nas doses mais altas. O bloqueio dos receptores 5-HT2A (ketanserina) preveniu a maioria desses efeitos do LSD, o que indica que esse psicodélico clássico precisa que esses receptores serotoninérgicos estejam “desocupados” (não bloqueados pela ketanserina) para que os efeitos aconteçam, como outros estudos já haviam demonstrado. Interessante notar que ter tido experiência prévia ou não com LSD não afetou a percepção subjetiva produzida pela substância no estudo; e não houve diferença entre mulheres e homens na concentração sanguínea de LSD ou nos seus efeitos.


O estudo mostrou também que o LSD é uma substância bastante segura em termos de efeitos fisiológicos para pessoas saudáveis, diferentes de outras drogas (não psicodélicas clássicas) que podem oferecer um risco maior. Houve aumento da pressão sanguínea a partir de 50 µg de LSD e aumento dos batimentos cardíacos a partir de 100 µg, mas apenas de forma sutil e sem prejuízo para os participantes; a temperatura corporal não foi afetada. Efeitos adversos foram percebidos nas sessões com 100 µg e 200 µg, embora sem nenhuma gravidade.


Além disso, a dose mais alta de LSD produziu aumento de BDNF no sangue 6h após sua ingestão. Esta é uma proteína que está reduzida em pacientes com depressão, e diferentes pesquisadores acreditam que esse aumento, produzido também por outros psicodélicos clássicos, como a ayahuasca, pode ser uma das causas para que essas substâncias apresentem efeitos antidepressivos. Isso deve ser alvo de mais estudos.





Os autores sugerem que a dose de 100 µg pode ser interessante para estudos que investiguem efeitos terapêuticos do LSD sobre ansiedade e depressão, já que ela induziu dissolução do ego e menor ansiedade do que a de 200 µg, fatores que outros estudos mostraram estar relacionados com melhores resultados do tratamento. Para pacientes sem experiência com psicodélicos ou pessoas mais sensíveis a essas substâncias, 50 µg de LSD parece ser relevante como dose de início para produzir principalmente os efeitos positivos. Por último, os autores discutem que a dose 25 µg pode ser considerada uma “minidose”, já que produz sensações positivas, e não uma “microdose”, que supostamente não deveria causar alterações subjetivas de forma aguda (nas horas subsequentes ao uso).


Um dos pontos altos deste estudo é que o mesmo grupo de pessoas recebeu todas as quatro doses de LSD, o que reduz a variabilidade individual e permite entender de forma mais isolada os efeitos da substância. É relevante destacar que o LSD utilizado apresenta alta pureza e dose controlada por ter sido sintetizado por uma indústria farmacêutica, o que pode ser bastante diferente do LSD adquirido no mercado ilegal. Além disso, os efeitos descritos levaram em conta os dados de 16 participantes no estudo; portanto, é importante ter em mente que nem todos tiveram efeitos idênticos e que não existe uma regra absoluta sobre tempo de início ou duração dos efeitos e sensações subjetivas percebidas. Afinal, os efeitos psicodélicos dependem da substância (dose, neste caso), do indivíduo (seu estado mental e emocional) e do ambiente físico e social (neste caso, o contexto clínico-laboratorial). De qualquer forma, este estudo traz dados importantes que indicam o baixo risco fisiológico do LSD até em doses mais altas.



Referência


Holze, F. et al. (2021). Acute dose-dependent effects of lysergic acid diethylamide in a double-blind placebo-controlled study in healthy subjects. Neuropsychopharmacology, 46: 537–544. https://doi.org/10.1038/s41386-020-00883-6

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