Psicodélicos, experiências místicas e o estudo científico da espiritualidade

Atualizado: Fev 7




Por Dimitri Daldegan-Bueno, MSc.



No estágio final da ausência de ego, sobrevém um "conhecimento obscuro" de que o Todo está em toda parte — de que o Todo é, na verdade, cada coisa. É esse, segundo entendo, o ponto mais próximo a que a mente finita pode chegar da percepção de "tudo quanto está acontecendo em toda parte no universo". (Aldous Huxley, 1954)

Você já viveu algo semelhante? Se sim, você não é a única pessoa. Há diversos relatos da ocorrência de experiências semelhantes a essa em diversas culturas e em diferentes épocas. Essas experiências de cunho espiritual, além de poder ter um papel existencial e singular em nós como seres humanos, podem ter impactos positivos nos nossos comportamentos e hábitos. Não é à toa que o estudo científico da espiritualidade tem recebido mais atenção, e os psicodélicos têm tido um papel central nesse campo.


Apesar da espiritualidade ter sido abordada historicamente por diversos estudiosos, um dos grandes nomes que marcou a área mais recentemente (século 19) foi o psicólogo e filósofo William James, que propôs que, apesar das diferenças culturais, a essência de todos os sistemas espirituais envolve uma vivência espiritual, que ele nomeou como experiência espiritual ou mística. Posteriormente o filósofo Walter Stace aprofundou e estruturou essa proposição, caracterizando a experiência mística ao redor de sete tópicos:


  1. Experiência profunda de conexão/unidade com tudo que existe.

  2. Experiência de sacralidade, contato com algo sagrado.

  3. Experiência de encontrar uma realidade última, mais real do que a vivência do dia-a-dia.

  4. Experiência profunda de humor positivo (ex.: alegria, êxtase, paz).

  5. Paradoxalidade: experiência conjunta de fenômenos que normalmente se excluiriam (ex.: ser o 'todo' e ser o 'nada', ao mesmo tempo).

  6. Dificuldade de descrever a experiência em palavras (inefabilidade).

  7. Transcendência do tempo e do espaço: sentir-se além do passado, presente e futuro, e além do espaço tridimensional ordinário, usualmente relatado como "eterno", "infinito".


Os filósofos William James (esquerda) e Walter Stace (direita).



Apesar de haver diferentes critérios para caracterizar uma experiência mística “completa”, a presença intensa de algum desses tópicos e, principalmente, a experiência profunda de unidade são elementos essenciais. Além do mais, a vivência desses tópicos de forma isolada não caracteriza necessariamente uma experiência mística. É importante ressaltar que a experiência mística pode ocorrer mesmo em pessoas que não têm religião ou não acreditam em deus (ateus).


Apesar de haver diversos relatos destas experiências na história da humanidade, na maioria das vezes elas ocorrem de forma imprevisível e/ou em pessoas com práticas e habilidades bem específicas e desenvolvidas (ex.: meditação, reza). Essas especificidades e imprevisibilidades são grandes desafios para a investigação das experiências místicas, uma vez que a pesquisa científica muitas vezes exige um contexto previsível, que permita controlar os diversos fatores que podem gerar confusão na interpretação dos resultados.


Bom... é aí que os psicodélicos entram. Existem diversos relatos, históricos e atuais, da vivência da experiência mística a partir do uso de psicodélicos (ex.: ayahuasca, peyote, cogumelos "mágicos"), e os conteúdos destes relatos, tanto das experiências induzidas por psicodélicos quanto por outras práticas sem o uso de substâncias, são extremamente similares.


Diversos relatos descrevem experiências místicas decorrente do uso de psicodélicos, tais como ayahuasca (A), peyote (B) e cogumelos "mágicos" (C).



É nesse contexto que, na década de 60, Walter Pahnke conduziu um experimento na Universidade de Harvard para investigar cientificamente a ocorrência da experiência mística induzida por psicodélicos. O pesquisador administrou psilocibina, substância presente nos cogumelos "mágicos", em um grupo de pessoas e uma substância sem efeito (placebo) em outro grupo durante uma missa na sexta-feira santa. Para esse estudo, ele desenvolveu a primeira versão da atual escala conhecida como MEQ30, ou Questionário de Experiência Mística (do inglês "Mystical Experience Questionnaire"). Com auxílio de técnicas estatísticas, esse questionário avalia a experiência mística de forma quantitativa - ou seja, com escores ou "números". Quase todas as pessoas do grupo que tomou psilocibina tiveram uma experiência mística, enquanto que as pessoas que receberam placebo não.


Desta forma, Pahnke demonstrou em um contexto científico a ocorrência da experiência mística induzida por psicodélicos. Estudos posteriores e mais rigorosos demonstraram que a psilocibina pode induzir experiência mística de forma dose-dependente, ou seja, quanto maior a dose, maior a probabilidade de a experiência ocorrer. Além da psilocibina, existem evidências de que vários outros psicodélicos (ex.: ayahuasca, LSD) também podem induzir este tipo de experiência, porém é importante ressaltar que nem todo psicodélico produzirá uma experiência mística, e fatores para além da substância - como o ambiente ("setting") ou a preparação/estado mental da pessoa ("set") - podem influenciar a probabilidade de ocorrência.


O fato de os psicodélicos terem a capacidade de induzir experiências místicas é bastante importante para o estudo científico da espiritualidade, uma vez que estas experiências podem ser induzidas em contextos controlados, além de propiciar uma base neurobiológica para esse fenômeno. Mas é claro que a neurobiologia dos psicodélicos não é suficiente para explicar toda a experiência mística, uma vez que a os psicodélicos não são necessários e nem suficientes para induzir esse tipo de experiência.



A propriedade dos psicodélicos em induzir experiências místicas contribui para o estudo científico da espiritualidade.



Para além do significado existencial de entendermos melhor a espiritualidade, a investigação científica nesse campo pode ajudar a entender aspectos importantes da consciência humana, como processamento espacial e temporal, autorreferência e emoções complexas. Ainda, a vivência destas experiências pode gerar modificações rápidas e sustentadas no comportamento e na percepção, e são responsáveis por pelo menos uma parte dos potenciais terapêuticos dos psicodélicos. Por exemplo, a intensidade da experiência mística induzida por psicodélicos está relacionada com a redução do uso de substâncias (ex.: álcool e tabaco) em contexto de tratamento de dependência e com a diminuição de ansiedade e depressão em pacientes com câncer, além de poder facilitar mudanças em traços da personalidade (1, 2).


É evidente que os psicodélicos possuem um papel fundamental no estudo da espiritualidade, sendo considerado por alguns estudiosos como uma ferramenta que auxilia a investigação da experiência mística. Nesse contexto, não é surpresa que essas substâncias também sejam chamadas de enteógenos (aquilo que "manifesta a divindade interior") ou "alimento dos deuses".


Referências


(1) Barrett FS, E Griffiths RR (2018) Classic Hallucinogens and Mystical Experiences: Phenomenology and Neural Correlates. Current topics in behavioral neurosciences vol. 36 (2018): 393-430. doi:10.1007/7854_2017_474.


(2) MacLean KA, Johnson MW, Griffiths RR (2011). Mystical experiences occasioned by the hallucinogen psilocybin lead to increases in the personality domain of openness. J Psychopharmacol. 25(11):1453-1461. doi:10.1177/0269881111420188.


Huxley A (2015 [1954]). As portas da percepção. São Paulo: Biblioteca Azul.


James W (2017 [1902]). As variedades da experiência religiosa. São Paulo: Cultrix.

Pahnke WN (1963). Drugs and mysticism: An analysis of the relationship between psychedelic drugs and the mystical consciousness. Cambridge, MA: Harvard University Press.


Stace WT (1960). Mysticism and philosophy. New York: MacMillan Press.

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