Nasce uma molécula: Um breve histórico dos usos do MDMA

Atualizado: Abr 11



Por Luis Felipe Valêncio, MS.





O MDMA (3,4-metilenodioximetanfetamina) é uma substância estimulante, da mesma classe das anfetaminas, que tem ganhado atenção como uma substância promissora no campo da saúde mental. Neste texto lançaremos um olhar panorâmico para os diferentes contextos em que esta substância já foi utilizada (como no contexto terapêutico e no uso social) e em como o proibicionismo - política baseada sobretudo na interdição do uso de substâncias conhecidas genericamente como “drogas” - adotado por diversos países e órgãos internacionais para lidar com o fenômeno desta e de outras substâncias, afetou a pesquisa científica com MDMA.


Esta substância foi sintetizada pela primeira vez em 1912 pelo químico Anton Köllisch, que trabalhava na empresa química e farmacêutica Merck KGaA, na cidade de Darmstadt, na Alemanha. Dois anos depois, em 1914, a substância foi patenteada (1). Embora seja comum encontrar relatos de que a descoberta do MDMA tenha se dado na tentativa de desenvolver fármacos inibidores do apetite, análises no registro original da patente e nos relatórios internos da Merck revelaram que a empresa na verdade buscava desenvolver fármacos hemostáticos, que são substâncias capazes de auxiliar na contenção de hemorragias (2, 3).


Na década de 50, a Universidade de Michigan realizou experimentos com MDMA em parceria com o Exército dos Estados Unidos. Foram realizados experimentos extraoficiais para averiguar a toxicidade da substância e seu efeito no comportamento de cinco diferentes espécies de animais (4), e a sigla utilizada para a substância era “EA-1475”, onde “EA” é uma menção a Edgewood Arsenal, instalação do exército americano onde o composto utilizado nos experimentos foi sintetizado (5). Por serem considerados secretos à época, os resultados destes experimentos só foram publicados em 1973.


Documento antigo, amarelado, com uma foto aérea de Edgewood Arsenal em 1918.

Documento com imagem aérea de Edgewood Arsenal em 1918 (Fonte: Wikimedia Commons).


Não há como narrar o histórico de utilização do MDMA sem mencionar o importante papel do químico estadunidense Alexander Shulgin (1925 - 2014). Após trabalhar na Marinha Norte Americana, Shulgin cursou graduação e pós-graduação em química, e posteriormente passou a trabalhar como cientista na empresa DOW Chemical Company, onde sintetizou e realizou experimentos com muitos compostos (2). Shulgin ressintetizou a molécula de MDMA nos anos 70, e entre 1975 e 1976 conduziu sessões de experimentação da molécula com um pequeno grupo de pessoas próximas. Foi o primeiro a publicar artigos científicos e a falar em conferências sobre os efeitos do MDMA (3).


Até os anos 70, não haviam sido realizados estudos científicos com o uso de MDMA em seres humanos (1). Em 1976, o uso do MDMA foi introduzido no contexto da psicoterapia por Leo Zeff, terapeuta da Costa Oeste dos Estados Unidos, e alguns meses depois este uso já era observado na Costa Leste deste país (4). Alexander Shulgin foi o responsável por apresentar o MDMA para Zeff. O principal objetivo destes terapeutas era fortalecer o vínculo terapêutico, por meio do estado alterado provocado pela substância, o que facilitaria o processo da psicoterapia. Naquela época, o termo “Adam” (“Adão”, em português), criado por Zeff, foi amplamente adotado no contexto da psicoterapia para se referir ao MDMA.


Alexander Shulgin e Leo Zeff.

Alexander Shulgin (esquerda) e Leo Zeff (direita).


Também na década de 70, o MDMA passou a ser detectado em análises químicas realizadas em amostras de substâncias apreendidas. Neste contexto, a substância era sintetizada por alguns laboratórios clandestinos. Na década de 80, este uso social se expandiu e foi progressivamente ficando mais popular nos Estados Unidos e em países do continente europeu. Em 1984, recebeu o nome de “ecstasy” na Califórnia, e, no verão de 1986, a ilha de Ibiza (Espanha) foi chamada informalmente de “XTC Island” (“Ilha do Êxtase”, em português). A utilização do ecstasy também foi popularizada inicialmente em festivais de música eletrônica (3) e, ao longo das décadas seguintes, este uso atingiria também vários outros contextos de utilização recreativa, um processo ainda em andamento.


Duas mãos de pessoas diferentes, uma passando um comprimido de MDMA para outra.

Na década de 80 o uso social do MDMA se expandiu, principalmente em festas.


Como vimos, a utilização do MDMA passou a ganhar popularidade, chamando a atenção das autoridades. O Drug Enforcement Administration – DEA (Agência Americana de Combate às Drogas, em português), que é responsável por editar uma lista de substâncias controladas, inseriu em 1985 o MDMA na “lista I”, a mais restritiva das cinco categorias. Os critérios observados por esta agência para classificar as substâncias leva em conta, segundo o DEA, fatores como: o potencial de abuso/dependência e a possibilidade de utilização para fins medicinais. Esta classificação rigorosa não impediu a ampla popularização do uso social do MDMA ao redor do mundo, mas enfraqueceu fortemente a realização de pesquisas para explorar o possível potencial terapêutico da substância.


Embora ainda não tenhamos superado totalmente o paradigma proibicionista, as pesquisas com MDMA e outros psicodélicos têm acumulado evidências acerca do potencial terapêutico desta classe de substâncias. Desta forma, mais pesquisadores têm se mostrado interessados em pesquisá-las, somando esforços para construir uma transição paradigmática (estabelecimento de novos entendimentos acerca de um determinado assunto) na direção de um paradigma pós-proibicionista. Neste novo paradigma, a molécula que já foi chamada de “EA-1475”, “Adam”, “ecstasy” e “MDMA” (dentre outros nomes), ocupa espaços de destaque em conferências científicas mundialmente e é uma aliada em potencial na melhoria da saúde e da qualidade de vida de muitas pessoas, em especial para aquelas que sofrem com transtorno de estresse pós-traumático, e que podem se beneficiar do uso terapêutico desta ferramenta.


Referências


PASSIE, Torsten; BENZENHÖFER, Udo. The history of MDMA as an underground drug in the United States, 1960–1979. Journal of Psychoactive Drugs, v. 48, n. 2, p. 67-75, 2016.


FREUDENMANN, Roland W.; ÖXLER, Florian; BERNSCHNEIDER‐REIF, Sabine. The origin of MDMA (ecstasy) revisited: the true story reconstructed from the original documents. Addiction, v. 101, n. 9, p. 1241-1245, 2006.


PENTNEY, Alana R. An exploration of the history and controversies surrounding MDMA and MDA. Journal of psychoactive drugs, v. 33, n. 3, p. 213-221, 2001.


SHULGIN, Alexander T. History of MDMA. In: Ecstasy: The clinical, pharmacological and neurotoxicological effects of the drug MDMA. Springer, Boston, MA, 1990. p. 1-20.


HOLLAND, Julie. The history of MDMA. 2001.

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