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  • Foto do escritorIago Lôbo

Rick Doblin, pioneiro dos psicodélicos, é celebrado pela Time em meio a críticas de má conduta em pesquisa



Resumo: A revista Time incluiu Rick Doblin, fundador da Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS), na lista das 100 pessoas mais influentes de 2024 na área da saúde mundial. Doblin é destacado por sua luta pela legalização do MDMA para tratamento de TEPT, especialmente entre veteranos de guerra. A MAPS, sob sua liderança, obteve avanços significativos para o MDMA, incluindo a designação de "terapia inovadora" pela FDA. No entanto, as trajetórias de Doblin e da MAPS enfrentam críticas, como alianças controversas e alegações de má conduta em pesquisas. O reconhecimento reflete o impacto, mas também levanta questões sobre os modelos de saúde e acesso ao uso de psicodélicos.


 

A revista Time, publicação  estadunidense dentre as maiores no ramo de notícias semanais, divulgou, em abril, sua lista das 100 pessoas mais influentes do ano de 2024, na área da saúde mundial. O campo psicodélico comemorou e repercutiu a presença de Rick Doblin entre essas pessoas (1). No entanto, o que estamos comemorando exatamente, neste caso? 


Rick Doblin, 70, que já foi chamado de “ex-hippie” (2), é um psicólogo estadunidense, que ficou mundialmente conhecido pelo seu trabalho em prol da legalização do MDMA. Tendo vivido e observado as potencialidades terapêuticas dos psicodélicos na cultura underground dos EUA, quando o MDMA é proibido, em 1985, ele decide por tornar sua missão de vida desfazer esse equívoco político. Com este objetivo em mente, no ano seguinte, em 1986, ele funda a Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (ou MAPS, na sigla em inglês), que se torna uma das principais instituições de captação de recursos e promoção de pesquisas clínicas com psicodélicos. 


Rick Doblin na publicação da revista Time e a MAPS (Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos), organização fundada por ele.



Existem indicativos de que o MDMA se torne o primeiro psicodélico legal nos EUA a nível federal, e não tem como negar a liderança da MAPS neste processo. Foi a partir de uma pesquisa da organização, em 2017, que o MDMA se tornou o primeiro psicodélico a receber a designação de “terapia inovadora” (breakthrough therapy) pela FDA, reconhecendo a potencialidade terapêutica da substância no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), e facilitando e acelerando as etapas seguintes de pesquisa em direção à sua oficialização como medicamento legalizado. 


No início de 2024, a Lykos Therapeutics, uma companhia de desenvolvimento de medicamentos que surgiu a partir das pesquisas da MAPS, submeteu ao FDA uma solicitação de avaliação do MDMA como novo medicamento, o que provavelmente fará dele o primeiro psicodélico legalizado como medicação nos EUA. Um parecer da FDA, em resposta à solicitação, está previsto para ser publicado em agosto de 2024 (3).


A estratégia escolhida, inicialmente, por Doblin foi ousada: sabendo dos efeitos empatógenos (capazes de “produzir empatia”) da substância, e do seu potencial terapêutico no tratamento de traumas, ele elegeu os veteranos de guerra como população alvo de suas pesquisas. Doblin reconheceu uma oportunidade de acessar grupos que talvez tivessem uma mentalidade conservadora contrária à ideia do uso de psicodélicos, ao ofertar aos traumatizados de guerra uma esperança, numa realidade onde os tratamentos mais indicados ainda são insuficientes e terminam, muitas vezes, no suicídio – afetando milhares de famílias todos os anos nos EUA. A proximidade da regulamentação do MDMA, e a escolha da Time em destacar Doblin como uma personalidade influente na saúde mundial, talvez indiquem que sua estratégia foi bem sucedida. Mas talvez também indique qual modelo de saúde e de uso de substâncias está sendo vitorioso no atual Renascimento Psicodélico.


Talvez muitos “hippies” e psiconautas ainda não tenham engolido a aliança estabelecida entre a MAPS e o Departamento dos Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos – ainda que isso tenha facilitado uma reinserção dos psicodélicos nas pesquisas clínicas. Para muitos, parece paradoxal e irônico que militares traumatizados de guerra tenham mais acesso às terapias psicodélicas do que outros pacientes e vítimas de outras guerras (como a “Guerra às Drogas”, que, diariamente mata jovens pretos e periféricos em lugares como o Brasil). Para outros, o que importa é o avanço no sentido de uma regulamentação: o importante é regular, “o resto a gente vê depois” . Ainda assim, há quem pense que a estratégia da regulamentação do uso terapêutico é limitada e não reconhece muitos usos e tradições relacionadas aos psicodélicos, deixando de fora do debate regulatório populações vulnerabilizadas.


Outra decisão recente da MAPS decepcionou parte de seus seguidores e entusiastas dos psicodélicos: sua divisão empresarial, antigamente chamada de MAPS PBC (sigla para “public benefit corporation”, comumente usada para indicar corporação de benefício público, ou seja, que não tem seu objetivo principal no lucro) foi parcialmente “vendida” por 100 milhões de dólares a investidores privados e transformada na Lykos Therapeutics. Ao longo dos seus 37 anos de existência, a MAPS foi capaz de arrecadar mais de 200 milhões de dólares para financiar seu projeto. A habilidade de articulação política de Doblin certamente foi peça chave no financiamento de diversas pesquisas com psicodélicos em todo mundo (o Instituto Phaneros, responsável pela primeira pesquisa clínica com MDMA no Brasil, por exemplo, chegou a receber 50 mil reais de contribuição da instituição para realização da pesquisa); mas também já sinalizava o tom empresarial e lucrativo que se fortaleceria dentro da organização. Nas palavras do jornalista Marcelo Leite, “a entrada de capitalistas na companhia repaginada tem motivado críticas de engajados na resistência psicodélica contra o proibicionismo” (4).


Peça publicitária da Lykos Therapeutics.



Rick Doblin e a MAPS estiveram envolvidos recentemente em uma outra polêmica, quando foi tornada público uma denúncia de assédio sexual sofrido por uma das pacientes da pesquisa clínica com MDMA conduzida pela MAPS (5). Meaghan Buisson se voluntariou para o estudo buscando tratamento para o TEPT, que havia desenvolvido depois de sofrer uma violência sexual. Os resultados da pesquisa fase 2 mostraram que 67% dos 107 participantes não apresentavam mais sintomas relacionados ao TEPT ao fim do estudo; mas Meaghan não estava entre eles. 


Nas gravações de vídeo das suas sessões com MDMA é possível ver que os terapeutas deitam na cama com ela, a abraçam e, em alguns desses momentos, ela responde com resistência e luta, mostrando desconforto com a situação. Segundo Meaghan, depois de finalizada a pesquisa, ela se sentia ainda pior e abandonada pela equipe; decidiu, então, seguir o tratamento com o casal de terapeutas que conduziram suas sessões, Donna Dryer e Richard Yensen, se mudando para a cidade onde eles viviam. Lá, ela relata que uma relação abusiva se consolidou entre ela e Richard, envolvendo o que ele dizia ser uma espécie de “terapia de exposição” – e que Meaghan experimentava como abuso e retraumatização. Mesmo com toda a repercussão que o caso teve, até com pesquisadores questionando a ética e a validade dos resultados da pesquisa, os advogados de Richard sustentaram que a relação tinha sido consensual, e Doblin defendeu a MAPS afirmando que “a má conduta sexual antiética aconteceu após o término da terapia… então isso nos fez pensar que não precisaríamos revisar o vídeo” (5).


Além disso, a MAPS enfrenta alegações preocupantes envolvendo a subnotificação sistemática de eventos adversos durante as sessões com MDMA, que incluem uma tentativa de suicídio grave. Em maio, o Institute for Clinical and Economic Review (ICER) publicou um relatório revisado sobre a terapia assistida por MDMA da Lykos, mantendo a conclusão de que as evidências clínicas são "insuficientes"(6). O relatório revisado responde aos 16 comentários públicos recebidos sobre o rascunho inicial, incluindo críticas da Lykos, pesquisadores dos ensaios clínicos e outros grupos. A Lykos alegou que não foi consultada, ao que o ICER respondeu que a empresa se recusou a colaborar e não forneceu contatos relevantes. 


Ao dar destaque ao pioneiro psicodélico, a Time reforça os modelos clínicos, mas também políticos, que a MAPS vem institucionalizando no cenário psicodélico global. Sem dúvida, a revista fará com que a empreitada psicodélica de Doblin seja ainda mais popularizada e reconhecida como “influente”, e até necessária; mas não contextualiza seus leitores sobre as críticas que sofre, ou os grupos que acabam invisibilizados e silenciados no processo. No último congresso organizado pela MAPS, o Psychedelic Science 2023, a fala de encerramento de Doblin foi interrompida por um grupo de manifestantes indígenas que diziam ao público: “Vocês foram enganados. Isso não é renascimento algum, está acontecendo há muito tempo. Isto é capitalização, não um movimento de libertação” (7).


Plenária do Psychedelic Sciente 2023.



Contudo, como afirmou o jornalista Nathan Fernandes no seu artigo “Ayahuasca na mídia: abrindo as portas da redação” (8): “(...) o sucesso de uma narrativa tende a ser maior quando é enunciado de lugares de privilégio”. No capítulo, ele mostra como a cobertura de imprensa sempre teve um papel ativo na construção das representações sociais em torno dos psicodélicos; ora como “prática excêntrica”, mergulhados em paradigmas eurocêntricos e no pânico moral proibicionista; ora como promessas terapêuticas revolucionárias, quando associadas a “homens de jaleco” e “homens brancos da elite”. No atual cenário, mais uma vez, parece que é essa última narrativa que vem sendo apropriada pelos portais de notícias, reforçando uma leitura do fenômeno do Renascimento Psicodélico como um momento de consolidação das pesquisas e práticas clínicas com psicodélicos, a partir de um viés acadêmico e médico.


Em 1957, numa edição histórica da revista Life (uma “prima” da Time, também fundada pelo magnata Henry Luce), o banqueiro Gordon Wasson narrou, numa reportagem de 17 páginas, sua expedição até a vila mexicana de Huautla de Jiménez, em Oaxaca, onde, com a condução da xamã Maria Sabina, participou da primeira cerimônia com cogumelos mágicos registrada por um ocidental. A repercussão da reportagem transformou a pacata vila num ponto turístico psicodélico, e Sabina foi responsabilizada pela comunidade pelo assédio que passaram a sofrer. Como sabemos, o hype em torno dos cogumelos mágicos cresceu muito desde então; a tradição xamânica que resistia na prática de Maria Sabina, por outro lado, nem tanto.


Por tudo isso, nos perguntamos novamente: a quem interessa a figura de Rick Doblin como líder psicodélico? Que tipo de perspectivas de saúde ele lidera e fomenta? Será ele o melhor representante do Renascimento Psicodélico que queremos? Será a MAPS a representante última do modelo clínico com psicodélicos que o mundo precisa? E afinal, o que podemos esperar do Renascimento Psicodélico? Quais outros caminhos regulatórios não estão sendo priorizados? Quais são os grupos e populações que não estão tendo acesso ao debate e à participação nesse processo? Talvez sejam perguntas importantes para mantermos vivas… Se não quisermos ser apenas “influenciados” psicodélicos. 



Autor:



Referências:


  1. Rick Doblin: Redefining Psychedelics (Time100 Health, 02/05/24) https://time.com/6968396/rick-doblin/ 

  2. Saiba quem é Rick Doblin, ex-hippie há 35 anos na vanguarda psicodélica (Virada Psicodélica, 11/03/2021) https://viradapsicodelica.blogfolha.uol.com.br/2021/03/11/saiba-quem-e-rick-doblin-ex-hippie-ha-35-anos-vanguarda-da-ciencia-psicodelica/ 

  3. MAPS Congratulates Lykos Therapeutics on Acceptance of New Drug Application for MDMA-ASsisted Therapy for PTSD (MAPS, 09/02/2024) https://maps.org/2024/02/09/maps-congratulates-lykos-on-acceptance-of-new-drug-application/ 

  4. Ano começa movimentado para a medicina psicodélica (Virada Psicodélica, 08/01/2024) https://www1.folha.uol.com.br/blogs/virada-psicodelica/2024/01/ano-2024-comecou-movimentado-para-a-medicina-psicodelica.shtml 

  5. Meaghan thought psychedelic therapy could help her PTSD. Instead it was the start of a nightmare (ABC, 25/07/2022) https://www.abc.net.au/news/2022-07-25/horrifying-video-of-mdma-drug-trial/101241532 

  6. Midomafetamine-Assisted Psychotherapy for Post-Traumatic Stress Disorder (Evidence Report, Institute for Clinical and Economic Review/ICER) . 

  1. Questão indígena agita encerramento da Psychedelic Science 2023 (Virada Psicodélica, 24/06/2023) https://www1.folha.uol.com.br/blogs/virada-psicodelica/2023/06/questao-indigena-agita-encerramento-da-psychedelic-science-2023.shtml 

  2. Livro “Visões Multidisciplinares da Ayahuasca” (Editora Unicamp, 2024) https://editoraunicamp.com.br/catalogo/?id=1868 

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