A inclusão dos usos terapêuticos de psicodélicos nos sistemas e políticas de saúde


[RESUMO] Pesquisadores refletem sobre os desafios do uso terapêutico de psicodélicos e estratégias de reciprocidade com os povos indígenas.



Imagine-se em um almoço de domingo com familiares ou amigos. Enquanto provam uma sobremesa, alguém lhe pergunta despretensiosamente sobre sua vida. Você comenta que começou a praticar meditação, buscando aliviar um estado de saúde que envolve sofrimento psicológico, como a ansiedade, por exemplo. As pessoas presentes lhe escutam e vocês avançam um pouco mais no assunto. Depois de mais algum tempo, alguém comenta sobre o sabor da sobremesa, reclama das uvas-passas, e a conversa toma outros rumos. Agora, expandindo este exercício imaginativo, no mesmo almoço e com as mesmas pessoas, suponha que você tenha dito que busca cuidar de sua saúde em um ritual urbano com plantas psicodélicas, ou então por meio de algum tipo de terapia assistida/facilitada por psicodélicos. Quais comentários você imagina escutar?


As possíveis respostas para este exercício imaginativo são bastante plurais. Tão plurais quanto as muitas formas de experienciar e representar o fenômeno do uso de substâncias com capacidade de alterar a consciência. Contudo, ainda é bastante comum encontrar pessoas que consideram estas práticas excessivamente danosas e arriscadas. Especialmente considerando os séculos de demonização e do genocídio ainda em curso de populações indígenas que estabelecem relações curativas (e constitutivas) com essas plantas; bem como de décadas de execução das práticas necropolíticas da chamada “Guerra às Drogas” — majoritariamente direcionadas à população negra e/ou moradores de periferias.


Os eventos e processos históricos mencionados acima empreenderam uma busca por fornecer respostas simplificadas e taxativas sobre os diferentes contextos de usos de substâncias. À despeito destas pressões etnocêntricas (que julga outras culturas como inferiores), as práticas curativas com o uso de plantas desenvolvidas pelas tradições indígenas e, posteriormente, por tradições religiosas (a exemplo de grupos brasileiros que fazem uso da ayahuasca, como o Santo Daime), persistem existindo, modificando-se e configurando ofertas importantes de cuidado. Mais recentemente, depois de algumas décadas de desenvolvimento das pesquisas clínicas com psicodélicos, o uso de algumas dessas substâncias tem mostrado-se uma importante via de cuidado para diversos tipos de adoecimento.



Recentemente, depois de décadas de desenvolvimento das pesquisas clínicas com psicodélicos, o uso de algumas dessas substâncias têm mostrado-se uma importante via de cuidado para diversos tipos de adoecimento.



A regulação destas práticas terapêuticas vem sendo discutida em diferentes âmbitos e foi o tema de um artigo publicado recentemente por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP-RP) e do Centro Internacional para Educação Etnobotânica, Pesquisa e Serviço (ICEERS). Os pesquisadores Rafael Guimarães dos Santos, José Carlos Bouso, Juliana Mendes Rocha, Giordano Novak Rossi e Jaime Hallak exploraram no estudo as oportunidades e desafios das políticas de saúde para integrar essas ferramentas terapêuticas em sistemas de saúde abrangentes e heterogêneos.


De acordo com os pesquisadores, os psicodélicos podem ser ferramentas terapêuticas importantes por uma série de fatores, como, por exemplo, apresentar vantagens em relação ao uso de medicamentos já disponíveis para o tratamento de transtornos psiquiátricos como a depressão e a ansiedade. Estes medicamentos clássicos estão associados a efeitos adversos significativos (o que pode reduzir a aderência ao tratamento), podem demorar várias semanas para atingir o potencial terapêutico pretendido e geralmente são utilizados de maneira contínua por vários meses ou anos, além de representarem um alto custo para as pessoas e para o sistema de saúde. Ainda, os psicodélicos podem ser uma opção terapêutica para pessoas que não responderam aos tratamentos psiquiátricos convencionais.



Os psicodélicos podem ser ferramentas terapêuticas importantes por uma série de fatores, como, por exemplo, apresentar vantagens em relação ao uso de medicamentos já disponíveis para o tratamento de transtornos psiquiátricos como a depressão e a ansiedade.



Já em relação aos desafios de integrar os psicodélicos nos sistemas de saúde, os autores destacam que o status ilegal dos psicodélicos em diversos países faz com que a etapa de tramitação burocrática para a relização de pesquisas com essas substâncias seja custosa e demorada. Outro desafio mencionado pelos autores está relacionado ao financiamento das pesquisas, uma vez que os tratamentos com substâncias psicodélicas geralmente utilizam uma dose única ou poucas doses, e em baixas concentrações das substâncias, tornando pouco atrativo para a indústria - realidade que está mudando vertiginosamente.


No âmbito da estrutura onde serão ofertados os tratamentos psicodélicos, é destacada a necessidade de estabelecer parâmetros éticos de utilização, de treinar os profissionais e acompanhar a segurança a longo prazo. Ainda, os protocolos de tratamento das pesquisas com psicodélicos geralmente envolvem sessões de preparação, acompanhamento e integração da experiência, com a participação de terapeutas, etc. Desta forma, os autores apontam que isso pode tornar impraticável a implementação destes tratamentos em países periféricos — ainda que a não utilização dos medicamentos clássicos por tempo prolongado possa configurar uma economia para as pessoas e/ou sistemas de saúde.



No âmbito da estrutura onde serão ofertados os tratamentos psicodélicos, é preciso estabelecer parâmetros éticos de utilização, treinar os profissionais e acompanhar a segurança a longo prazo.



O estudo também destaca que algumas dessas moléculas e compostos psicodélicos como a ayahuasca/DMT e a psilocibina foram descobertos e extraídos a partir de comunidades indígenas, e sugere que as empresas psicodélicas farmacêuticas considerem estratégias de reciprocidade para devolver às comunidades indígenas e à sociedade os benefícios obtidos quando estas substâncias se tornarem medicações prescritas.


Ao refletir sobre os desdobramentos do fenômeno de globalização do uso da ayahuasca aos conhecimentos tradicionais indígenas, a artista e educadora Daiara Tukano situa o papel do racismo estrutural na dificuldade de compreensão e diálogo entre a ciência indígena e a ciência não-indígena (ambas consideradas em sua diversidade interna). Segundo Daiara, “(...) É necessário refletir sobre esses paradigmas para construir relações de cooperação e respeito entre culturas distintas”. A autora apresenta uma série de argumentos que evidenciam que, apesar de vários campos disciplinares da ciência não-indígena estudarem a ayahuasca e muitos não-indígenas buscarem esta bebida para tratar alguns tipos de adoecimento como a depressão, pouca coisa mudou no regime de violência e exclusão direcionada aos povos indígenas.


Como vimos, o processo de integração dos tratamentos psicodélicos nos sistemas de saúde é bastante complexo e mobiliza diferentes setores sociais, saberes e esforços regulatórios. As questões éticas suscitadas são igualmente complexas, abrangendo desde algumas particularidades clínicas da relação de cuidado (relação entre o profissional de saúde e o paciente), até questões geopolíticas de escala macrobioética, como, por exemplo, a desigualdade de recursos disponíveis para estes tratamentos psicodélicos entre países centrais e periféricos e os impactos mais amplos da exploração capitalista destas terapias nas comunidades que fazem usos tradicionais de psicodélicos.




Por Luis Felipe Valêncio, MS.




Referências


Dos Santos, R. G., Bouso, J. C., Rocha, J. M., Rossi, G. N., & Hallak, J. E. (2021). The Use of Classic Hallucinogens/Psychedelics in a Therapeutic Context: Healthcare Policy Opportunities and Challenges. Risk management and healthcare policy, 14, 901–910. https://doi.org/10.2147/RMHP.S300656


Tukano (2021). Ayahuasca e os desafios dos conhecimentos indígenas diante da globalização. [internet]. Disponível em: https://www.daiaratukano.com/post/ayahuasca-e-os-desafios-dos-conhecimentos-ind%C3%ADgenas-diante-da-globaliza%C3%A7%C3%A3o (acessado em 29-05-2021).


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