Estudo analisa a composição química de amostras de ayahuasca

Atualizado: Mai 8




Por Luis Felipe Valêncio, MS.



Embora a experiência psicodélica seja influenciada por diversos fatores para além da substância (conforme abordado neste texto), a substância em si também é importante na produção dos efeitos. Nos grupos que fazem uso cerimonial da ayahuasca no Brasil, antes ou após as sessões com a bebida, é comum ouvir comentários sobre a intensidade (concentração) do chá que será/foi utilizado, ou então sobre o número de doses servidas em determinada ocasião. O preparo da bebida nos diferentes grupos que utilizam a ayahuasca é geralmente realizado de forma cerimonial e artesanal, resultando assim na existência de diferentes composições dos principais alcaloides que estão presentes na bebida, sendo eles: harmina, harmalina e tetrahidroharmina, presentes no cipó Banisteriopsis caapi, e dimetiltriptamina (DMT), presente no arbusto Psychotria viridis. É importante considerarmos que esta variação no preparo pode ser observada entre diferentes grupos ayahuasqueiros, mas também em diferentes preparos da bebida em um mesmo grupo.


Pessoa passando um preparo de ayahuasca bem concentrado de uma jarra para um recipiente menor.

O preparo da ayahuasca nos diferentes grupos que a utilizam é geralmente realizado de forma cerimonial e artesanal, resultando na existência de diferentes composições.



Um estudo publicado em setembro de 2020 na revista Journal of Psychoactive Drugs, intitulado “Composição Química de Ayahuascas Tradicional e Análoga” (“Chemical Composition of Traditional and Analog Ayahuasca”) buscou determinar e comparar as composições dos compostos mais conhecidos da ayahuasca em diferentes localidades (Brasil e alguns países da Europa) e tradições (indígenas, religiosos, neoxamânicos, entre outras). O estudo é de autoria da pesquisadora Helle Kaasik (Escola de Teologia e Estudos Religiosos da Universidade de Tartu, na Estônia), das pesquisadoras Rita C. Z. Souza, Flávia S. Zandonadi e Alessandra Sussulini (LaBIOmics – Laboratório de Bioanalítica e OMICS Integrada, do Instituto de Química da UNICAMP) e do pesquisador Luís Fernando Tófoli (ICARO – Cooperação Interdisciplinar para a Pesquisa e Extensão da Ayahuasca, da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP).


Foram analisadas um total de 102 amostras de ayahuasca utilizadas em contexto cerimonial em diferentes países (Brasil, Países Baixos, Estônia, Itália, Finlândia, República Tcheca, Grécia, Portugal, Espanha e Estados Unidos da América) por meio da técnica de cromatografia líquida de ultra eficiência acoplada à espectrometria de massas sequencial (UHPLC-MS/MS, na sigla em inglês), na qual se utiliza um equipamento para caracterizar e quantificar componentes de determinadas substâncias. Em seguida, em um outro equipamento, foram realizadas outras análises nas quais foi identificada a ocorrência de aditivos incomuns e que não são tradicionalmente utilizados no preparo da ayahuasca.


Diversas amostras de ayahuasca, com colorações diferentes, acondicionadas em uma placa com diversos buraquinhos.

Amostras de ayahuasca analisadas no estudo (Fonte: Kaasik et al., 2020).



Durante as coletas, as amostras foram identificadas em relação ao grupo a qual pertenciam, por exemplo, “daime” na prática do Santo Daime, ou “hoasca” no caso da única amostra advinda da União do Vegetal (UDV) – expressões da religiosidade ayahuasqueira brasileira. Também foram coletadas informações relacionadas à “graduação” da bebida, como “1º grau”, “3x1”, “mel” e “gel” – diferentes graus de concentração da bebida, obtidos com diferentes quantidades de material vegetal e tempo de fervura. As amostras coletadas em cerimônias lideradas por indígenas da América do Sul foram denominadas de “uso xamânico”. Por fim, as amostras coletadas em contextos onde a ayahuasca foi servida por facilitadores ocidentais, foram identificadas como “neoxamânicas”.


Um dos resultados interessantes do estudo foi o de que a concentração dos alcaloides em diferentes “graduações” da ayahuasca correspondeu bem ao conhecimento empírico dos usuários. Ou seja, as graduações mais altas da bebida tinham maiores concentrações de DMT, harmina, harmalina e tetrahidroharmina, como exemplificado no gráfico abaixo:


Gráfico apresentando as concentrações de DMT, THH (tetrahidroharmina), harmina e harmalina.

Concentrações de DMT, THH (tetrahidroharmina), harmina e harmalina em preparos de ayahuasca com diferentes graduações (Fonte: Kaasik et al., 2020).


As amostras de origem neoxamânicas apresentaram maiores concentrações de DMT, quando comparadas com as amostras de origem xamânicas. Uma das hipóteses apresentadas pelos autores é a de que a maior concentração de DMT nas amostras neoxamânicas pode indicar a utilização de outras plantas contendo DMT utilizadas no preparo da ayahuasca. Os resultados das análises de preparados tradicionais (de origem xamânica e do Santo Daime) parecem aproximar estas duas categorias, uma vez que, segundo os autores, este resultado pode ser reflexo do fato destes grupos possuírem receitas tradicionais, com proporções estabelecidas das plantas constituintes, e/ou uma menor variação da composição química do material vegetal utilizado quando comparado com os diversos grupos neoxamânicos. Os autores também lembram que a ayahuasca não pode ser reduzida somente aos quatro alcaloides estudados, uma vez que a bebida contém diversos outros compostos (Wang et al., 2010).


Foram identificados aditivos que não são utilizados tradicionalmente na preparação da ayahuasca. Estes preparados também são chamados de “anahuasca” (análogos de ayahuasca), situação na qual são utilizadas outras plantas contendo DMT (como a “jurema”, Mimosa tenuiflora) ou uma fonte de compostos inibidores da MAO (como a “arruda da síria”, Peganum harmala). Em duas amostras analisadas foram encontrados preparados que recebem o nome de “farmahuasca” (análogo de ayahuasca que utiliza compostos farmacêuticos), com a presença de moclobemida, uma substância inibidora da recaptação de serotonina vendida como medicamento antidepressivo, e de psilocina, um composto psicodélico encontrado nos cogumelos do gênero psilocybe. Embora apresentassem alta concentração de DMT (cuja fonte, segundo o facilitador, foi a planta jurema), não foram identificadas quantidades substanciais de alcaloides do cipó B. caapi nestas amostras. Durante as cerimônias com estes preparados, realizadas na Europa, os participantes tiveram muito vômito e diarréia. Quando o facilitador responsável pelo preparo da bebida foi perguntado sobre as substâncias encontradas, ele informou ter adicionado o medicamento antidepressivo para garantir o efeito da bebida, uma vez que o cipó comprado por ele pela internet para o preparo do chá estava com uma qualidade ruim. O facilitador também alegou não ter adicionado cogumelos ou psilocina no preparo. Nenhum dos participantes presentes nestas cerimônias foram informados sobre a adição de moclobemida e psilocina na bebida.


Esquema ilustrando os outros compostos encontrados nas amostras de ayahuasca: jurema (Mimosa tenuiflora), arruda da síria (Paganum harmala), psilocina (encontrada nos cogumelos Psilocybe cubensis) e o medicamento antidepressivo Moclobemida.

Nas amostras analisadas, também foram encontrados compostos geralmente não utilizados no preparo da ayahuasca, tais como as plantas jurema (Mimosa tenuiflora, A) e arruda da síria (Peganum harmala, B), a psilocina (encontrada nos cogumelos do gênero Psilocybe, C) e até mesmo medicamentos, tais como o antidepressivo moclobemida (D).



A partir das análises realizadas, as autoras realizam uma importante reflexão sobre o papel da regulação e da autorregulação na qualidade do chá consumido, uma vez que a ayahuasca é considerada ilegal ou apresenta status não regulado em alguns países da Europa, por exemplo. Elas argumentam que incertezas legais sobre a ayahuasca e suas plantas constituintes podem encorajar a utilização de componentes substitutos, legais ou ilegais, e que também atrapalha a livre comunicação sobre a procedência e a composição da bebida entre participantes e facilitadores. Não foram encontradas preparações com aditivos nas amostras de ayahuasca coletadas no Brasil (país onde o uso da ayahuasca é regulado) e em amostras coletadas em cerimônias do Santo Daime na Europa. As autoras apontam ainda que a autorregulação e o estabelecimento de procedimentos rituais de preparo da bebida que sejam abertos à participação da comunidade podem servir como estratégias de proteção contra adulteração e falsificação.


Por fim, as autoras argumentam ainda que os riscos representados pela possibilidade de consumir uma ayahuasca adulterada ou com análogos podem ser evitados/atenuados mediante alguns fatores, como esforços educativos voltados aos usuários da ayahuasca – ofertados por grupos como o Centro Internacional de Educação, Pesquisa e Serviço Etnobotânico (International Center for Ethnobotanical Education, Research, and Service - ICEERS) e o Instituto Chacruna –, bem como adoção de processos regulatórios com base em evidências e o desenvolvimento de parâmetros éticos para a produção da bebida.


As amostras analisadas no estudo fornecem informações valiosas sobre a caracterização dos alcaloides presentes na ayahuasca e a utilização de componentes substitutos na bebida em diferentes localidades e contextos. No entanto, é importante considerar que estas amostras não representam a totalidade dos grupos ayahuasqueiros, e que existe uma sub-representação das amostras oriundas de variadas etnias indígenas que utilizam a ayahuasca, bem como de outros grupos religiosos, como a Barquinha. Assim, mais do que concluir que determinada prática ou “linha” ayahuasqueira é “mais/menos segura”, ou que “a qualidade de determinada amostra de ayahuasca é melhor/pior que outra” estas descobertas trazem contribuições importantes para pensar a segurança da experiência ritual com a ayahuasca, especialmente no contexto de globalização do uso da bebida.



Referências


Wang, Y. H., et al. (2010). Composition, standardization and chemical profiling of Banisteriopsis caapi, a plant for the treatment of neurodegenerative disorders relevant to Parkinson's disease. Journal of ethnopharmacology, 128(3), 662-671. https://doi.org/10.1016/j.jep.2010.02.013


Kaasik, H., et al. (2020). Chemical Composition of Traditional and Analog Ayahuasca. Journal of Psychoactive Drugs, 1-11.https://doi.org/10.1080/02791072.2020.1815911

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