• Dimitri Daldegan-Bueno

DMT e a experiência de quase-morte

Atualizado: Set 4


Pesquisa mostra que a aplicação de DMT em laboratório induz efeitos semelhantes às experiências de quase-morte.



A morte é um assunto recorrente no meio psicodélico e já foi tema de diversas obras literárias* e objeto de muitas pesquisas, como a realizada na pesquisa de doutorado do psicofarmacologista Lucas Maia. É muito comum se deparar com relatos de pessoas experienciando o morrer durante experiências com psicodélicos, especialmente quando a dose é alta. Muitas pessoas descrevem essas experiências como se estivessem no limiar da vida, relacionando-as com experiências de quase-morte.


As experiências de quase-morte são experiências psicológicas que algumas pessoas vivenciam quando estão perto de morrer ou em uma situação de perigo extremo. Apesar de muito complexas e difíceis de definir, sentimentos de paz interior, experiências fora do corpo, viagens por locais escuros ou vazios (normalmente associados a um túnel), visualização de luzes muito claras, além da sensação de adentrar em um mundo diferente e, muitas vezes, se comunicar com “outros seres” são relatos comuns.


As experiências de quase-morte são experiências psicológicas que algumas pessoas vivenciam quando estão perto de morrer ou em uma situação de perigo extremo.



Talvez você tenha percebido que a experiência de quase-morte pode ter alguns aspectos semelhantes com as experiências psicodélicas e com a experiência mística, que muitas vezes é induzida por psicodélicos. Alguns relatos que marcam muito essas semelhanças vêm de voluntários que receberam a N,N-dimetiltriptamina (DMT) de forma intravenosa (injeção na veia) na década de 90 — um estudo que marcou a retomada das pesquisas com os psicodélicos (Strassman, 1994).


A DMT é um potente psicoativo que ocorre naturalmente em plantas e em animais, também conhecido por ser um dos principais componentes responsáveis pelo efeito psicoativo da ayahuasca. A forma de administração intravenosa proporciona um efeito extremamente rápido e intenso, pois a substância entra em contato direto com a corrente sanguínea e chega ao cérebro rapidamente. Essa via de administração difere, por exemplo, da forma oral, em que a substância é primeiro absorvida pelo trato gastrointestinal e só então é gradativamente liberada na corrente sanguínea, causando uma experiência mais prolongada e menos intensa.


Dessa maneira, as experiências relatadas no estudo de Strassman foram extremamente fortes e impactaram os participantes profundamente. Os relatos visuais predominaram, além de experiências fora do corpo e da sensação de estar em um mundo diferente envolvido por seres desconhecidos, a ponto de haver pouca ou nenhuma distinção do que era visto com olhos abertos ou fechados. Os resultados desta pesquisa levaram ao desenvolvimento do livro DMT: A molécula do espirito, recentemente lançado em português no Brasil, e também ao documentário com o mesmo nome.



O livro de Rick Strassman, DMT: A Molécula do Espírito.



É nesse contexto que recentemente o cientista chileno Christopher Timmerman investigou a fenomenologia da experiência subjetiva da DMT e comparou, experimentalmente, se esta seria semelhante à de uma experiência de quase-morte. Seu trabalho foi publicado em 2018 na revista científica Frontiers in Psychology (Timmerman, 2018).


Para tanto, treze voluntários que já tiveram experiências com psicodélicos receberam primeiramente uma dose placebo (uma substância sem efeito) e, uma semana depois, uma dose de DMT. Diferente de muitos ensaios clínicos, nos quais os resultados de um grupo que recebe a droga são comparados com outro grupo que recebeu placebo, nesse estudo todos os participantes receberam tanto placebo quanto a DMT, e os resultados foram comparados dentre a experiência de cada participante.



O pesquisador Christopher Timmerman e seu artigo publicado na revista científica Frontiers in Psychology.



O ambiente de pesquisa, ou o setting, consistia em uma sala com iluminação amena e música ambiente, onde os participantes ficavam em uma posição reclinada. A DMT foi administrada por uma injeção intravenosa pelo período de 30 segundos, com doses que variaram de 7 a 20mg. Dessa forma, os participantes sentiram os efeitos imediatamente após a administração, ou até mesmo enquanto a DMT ainda estava sendo administrada.


O pico dos efeitos durou cerca de três minutos, porém efeitos mais leves e residuais permaneceram por até 20 minutos. Vale lembrar que apesar dos efeitos serem rápidos devido à via de administração, a percepção do tempo pode ser alterada pelos psicodélicos, fazendo com que a experiência pareça ter durado muito mais. Para avaliar a experiência de quase-morte, foi utilizado um questionário padronizado que mede a intensidade da experiência por escores, aplicado logo após a experiência com placebo ou DMT. Além disso, também foram avaliadas outras experiências, como a ocorrência de experiência do tipo mística e de dissolução do ego.


Um aspecto interessante desse estudo foi que, além de comparar os resultados com o placebo, os autores também os compararam com resultados de pessoas que vivenciaram uma experiência de quase-morte através de uma situação com risco à vida real e já haviam preenchido o mesmo questionário. Para tanto, os autores selecionaram treze pessoas que viveram experiências reais de quase-morte com características sociodemográficas compatíveis com as dos participantes do estudo (ex.: sexo, idade).


Desta forma, Timmerman verificou que todos os participantes do estudo tiveram experiências consideradas do tipo de quase-morte. Além disso, a DMT induziu experiências místicas e de dissolução do ego, que tiveram uma correlação positiva com a experiência de quase-morte induzida pelo DMT. Isso sugere que a experiência mística, de quase-morte e dissolução do ego se influenciam mutuamente. Para alguns autores, o que há de mais comum entre essas experiências, e talvez do potencial terapêutico, é a forte percepção de unidade (o “todo” se tornar “um”). Ao final, os autores concluíram que a experiência com DMT não teve diferenças significativas das experiências de quase-morte que ocorreram de forma espontânea.


É importante ressaltar que a experiência de quase-morte é um campo difícil de ser estudado, e as descrições, definições e mensurações ainda possuem bastante variabilidade. De forma semelhante às experiências místicas, as experiências de quase-morte são extremamente difíceis de serem investigadas e estão associadas com mudanças, normalmente duradouras e positivas, de atitude, crenças e personalidade. Dentre os resultados e implicações deste estudo, é notório o passo em direção a construir um método para induzir a experiência de quase-morte, facilitando assim sua investigação científica.


É interessante notar que a origem do nome “ayahuasca”, oriundo da língua Quéchua na região dos Andes, significa algo próximo a “cipó dos mortos” ou “o cipó das almas”. Um dos diversos propósitos para o uso da ayahuasca entre algumas algumas culturas ameríndias sul-americanas consiste em “comunicar-se com espíritos e ancestrais”. Os povos Tukano do rio Vaupés (Colômbia), por exemplo, consideram que o caapi (outro nome dado para a ayahuasca) permite conhecer a morte e retornar ao “útero cósmico”, em contato com o divino e com a origem de todas as coisas (Luna, 2011 apud Reichel-Dolmatoff, 1975).


Certamente, os significados atribuídos à experiência com ayahuasca/DMT são influenciados por fatores socioculturais que incluem representações e crenças diversas. No entanto, não deixa de ser intrigante as intersecções e possíveis semelhanças/paralelismos que tal experiência pode apresentar entre diferentes contextos étnicos e culturais.


* Talvez a obra mais conhecida seja o livro The psychedelic experience: A manual based on the tibetan Book of the dead (A Experiência psicodélica - um manual baseado no livro tibetano dos mortos) (Leary, 1964). A morte também foi um tema amplamente abordado por Aldous Huxley em livros como A ilha (Huxley, 1977) ou nos textos do Moksha (Huxley, 1962).




Por Dimitri Daldegan-Bueno, MS.




Referências


Huxley, A., (1962). A ilha. (Globo Editora)


Huxley, A., (1977). Moksha: Aldous Huxley's Classic Writings on Psychedelics and the Visionary Experience (Chatto & Windus).


Leary, T., et al. (1964). The psychedelic experience: A manual based on the tibetan book of the dead (Citadel).


Luna LE. Indigenous and mestizo use of ayahuasca. An overview. In: Dos Santos RG, editor. The Ethnopharmacology of Ayahuasca. Kerala: Transworld Research Network; 2011.


Maia, L. O., Daldegan-Bueno, D., & Tófoli, L. F. (2020). The ritual use of ayahuasca during treatment of severe physical illnesses: a qualitative study. Journal of Psychoactive Drugs, 1–11. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/02791072.2020.1854399


Strassman, R. J., et al. (1994). Dose response study of N,N-dimethyltryptamine in humans. II. Subjective effects and preliminary results of a new rating scale. JAMA Psychiatry, 51, 98–108. https://doi.org/10.1001/archpsyc.1994.03950020022002


Timmermann, C. et al. (2018). DMT Models the near-death experience. Frontiers in Psychology. 9(1424). https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.01424

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