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  • Foto do escritorNathan Fernandes

“Como Mudar sua Mente”, uma análise crítica



Resumo: Inspirada no livro “Como Mudar sua Mente”, do jornalista Michael Pollan, a série homônima da Netflix faz um compilado preciso desta obra que se tornou uma das principais referências do atual renascimento da ciência psicodélica. Apesar de registros históricos marcantes, um demarcado posicionamento antiproibicionista e conversas reveladoras com grandes nomes da psicodelia mundial, a obra, no entanto, ignora a ciência feita no sul global, com psicodélicos clássicos como a DMT da ayahuasca, e passa por cima de discussões importantes.


 

Em 1957, quando jornais e revistas impressas eram uma das poucas fontes de informação, uma reportagem sobre cogumelos mágicos deixou os Estados Unidos eufóricos. O autor do trabalho, publicado na famosa revista Life, era R. Gordon Wasson, um ex-jornalista e micologista amador que fez carreira como executivo do banco J.P. Morgan. Sua reportagem é considerada o primeiro registro de um ocidental em uma cerimônia ritualística com cogumelos. Por ter sido publicada em um veículo popular de grande alcance, a matéria deu aos norte-americanos uma percepção diferente daquela substância mexicana considerada “exótica” .


O fato de Wasson ser um homem branco bem sucedido, vindo do principal polo financeiro do mundo, ajudou. No livro “Acid Hype” (2015), o jornalista Stephen Siff escreve que as características de Wasson foram um bônus para a história, “proporcionando um contraste dramático entre o autor do relato em primeira pessoa e os ambientes primitivos e experiências selvagens que ele descrevia”. “Além disso, as credenciais sociais sólidas isolavam Wasson das críticas que poderiam colocá-lo como um caçador de emoções ou mesmo um viciado em drogas, as quais poderiam ter sido mais facilmente empilhadas em um escritor menos credenciado.”


A comoção mostra como a fonte do enunciado pode alterar a percepção de quem recebe a mensagem. Isto é, uma pessoa indígena falando de sua própria experiência com psicodélicos, dificilmente, seria recebida com a mesma disposição.


Mas a disposição passou. A partir da década de 1970, essas substâncias foram engolidas pela política proibicionista da Guerra às Drogas promovida pelo presidente Richard Nixon, tendo diversas pesquisas interrompidas, e retardando o desenvolvimento de tratamentos para diversos transtornos mentais. Só depois dos anos 2000, essas substâncias voltaram aos holofotes da ciência, ganhando assim a simpatia da imprensa e de um público mais amplo. É o chamado renascimento das pesquisas feitas com psicodélico.


Um dos principais responsáveis por mapear esse ressurgimento e organizar a história de uma forma linear foi o jornalista Michael Pollan, com o livro “Como Mudar a Sua Mente”, publicado nos EUA, em 2018, uma obra que não demorou para alcançar o topo dos mais vendidos, sendo traduzida para diversos idiomas, inclusive o português.


O jornalista Michael Pollan e seu livro “Como Mudar a Sua Mente”.



Da mesma forma que as pessoas passaram a ter uma impressão diferente sobre os psicodélicos por causa da reportagem de Wasson, na década de 1950, o público atual também têm a oportunidade de dissolver impressões equivocadas sobre essas substâncias através do trabalho de Pollan, um renomado professor acadêmico e jornalista de ciências. Mais uma vez, a fonte do enunciado molda a percepção de quem recebe a mensagem, mostrando que, em mais de 60 anos, a sociedade norte-americana (e muitas outras) continua privilegiando um discurso formatado aos padrões ocidentais — o que não desqualifica o trabalho de Pollan, mas mostra o quanto ainda estamos entrelaçados a concepções eurocêntricas de perceber o mundo.


Em julho de 2022, as palavras de Pollan extrapolaram o livro e se tornaram série da Netflix, contando com apresentação do próprio jornalista e produção-executiva de Alex Gibney, vencedor do Oscar pelo documentário “Um Táxi para a Escuridão”, de 2007. A série documental de quatro episódios “Como Mudar a Sua Mente” é um excelente compilado das informações e reflexões apresentadas no livro, e transcende o trabalho do papel ao apresentar imagens históricas marcantes, conversas reveladoras com grandes nomes da psicodelia e ilustrações lisérgicas que acompanham relatos impressionantes de pessoas que superaram seus fantasmas.

LSD: milagroso e satânico



Pollan inicia a série através da história do LSD, que oferece um panorama geral sobre a forma como a sociedade percebia o psicodélico em seu primeiro boom, na metade do século passado, e como passou a perceber depois da proibição. “A droga milagrosa virou a droga satânica”, resumiu Albert Hoffman, o químico suíço que sintetizou o LSD em laboratório pela primeira vez, em 1938.


Além de Hofmann, outros nomes importantes da psicodelia ocidental dão as caras no episódio, como Richard Alpert e Timothy Leary, cujas contribuições são observadas até hoje — a exemplo do conceito de “set” e “setting”, que reforçam a importância do estado mental e do ambiente para a realização de uma experiência psicodélica.


O episódio retrata o momento em que os psicodélicos escaparam dos laboratórios e foram absorvidos pelo movimento de contracultura formado por jovens descontentes com o sistema no qual estavam inseridos. A expansão de consciência promovida pelo uso dessas substâncias serviu de gatilho para o questionamento de várias normas vigentes, como a obrigatoriedade do serviço militar, em um momento no qual os EUA estavam em guerra com o Vietnã. Leary, que foi tido como um dos principais questionadores, também foi apontado como o culpado pelo declínio dos psicodélicos, já que suas pesquisas em Harvard passaram a adotar critérios pouco científicos e se tornaram alvo de críticas. Para Pollan, no entanto, esses expansores já iriam ser absorvidos pela cultura de qualquer forma, já que Leary não era o único agente ativo naquele momento.


O episódio ainda trata do papel da mídia na demonização dos psicodélicos, mostrando como a imprensa foi importante para a criação de uma caricatura assustadora das substâncias que ameaçavam o governo de Richard Nixon. “Podemos perseguir os traficantes; podemos tratar os viciados. Mas, em última análise, a menos que estabeleçamos uma nova atitude — a começar com jovens em idades escolares — o tráfico continuará a crescer. Portanto, a educação — pela mídia, pelos jornais, pela televisão e rádio, pelos professores, e por todos os líderes de opinião — é absolutamente essencial, ou nosso programa falhará”, afirmou o então presidente, referindo-se à Guerra às Drogas (Stephen, 2015).


Apesar da aparente preocupação com a segurança e o bem estar dos cidadãos, o discurso de Nixon era mais pautado pelo moralismo e preconceito do que pela ciência, como fica evidente no episódio. Neste artigo do CP, destaquei como o proibicionismo norte-americano serviu de referência para os países da América Latina, tanto na política quanto na forma como a imprensa retrata o uso de drogas. As consequências disso podem ser percebidas até hoje. E o episódio percorre um rico caminho narrativo para explicar e contextualizar como chegamos a esta situação.


Psilocibina: fungos fantásticos



O segundo episódio é uma ode aos cogumelos com psilocibina. A substância presente nos cogumelos mágicos é apresentada como um psicodélico capaz de livrar as pessoas de males como a depressão, ansiedade e o uso problemático de substâncias. Sua magia, no entanto, não foi capaz de livrar a xamã Maria Sabina de um fim amargo.


A líder espiritual de Oaxaca foi quem conduziu a experiência de R. Gordon Wasson, o banqueiro de Wall Street que relatou sua odisseia à revista Life, na década de 1950. Apesar dele não ter revelado o nome de sua condutora na reportagem, a menção ao lugar fez com que muitas pessoas fossem até o povoado de Sabina, gerando um fluxo grande demais para a pequena cidade, fazendo a população do lugar se revoltar contra a xamã, que teve sua casa incendiada e morreu na miséria.


A menção dessa história na série mostra a preocupação de Pollan em não tratar os psicodélicos apenas como compostos farmacológicos, mas, sim, como substâncias que estão inseridas em um contexto cultural muito mais amplo do que aquele que a ciência ocidental consegue apreender. Este tema é aprofundado nos episódios seguintes e aparece em declarações como a do psicólogo Bill Richards, da Universidade Johns Hopkins, que afirma: “Há dois tipos de ciência: aquela que só quer ver o que pode ser medido facilmente, ignorando todo o resto; e a verdadeira ciência, que investiga as fronteiras do conhecimento humano. É onde está a ciência psicodélica hoje”.


Quem tem contato com os principais trabalhos científicos do campo pode reconhecer entre os entrevistados do segundo episódio pesquisadores estrelados, como Roland Griffiths, Paul Stamets e Robin Carhart-Harris. A série traz ainda depoimentos emocionantes de pessoas que superaram transtornos mentais profundos, o que leva Pollan a refletir brevemente sobre a potência da psilocibina e a possibilidade da indústria farmacêutica de domesticar e ganhar dinheiro com um recurso que não pertence às indústrias, mas à natureza. A discussão é retomada em episódios posteriores, e mostra como essa preocupação deve alcançar o papel principal de todos aqueles que não querem reproduzir os modelos exploratórios tradicionais.


MDMA: traumas liberados



O MDMA, do Ecstasy, é a estrela do terceiro episódio. A substância que, ao lado da psilocibina, deve ser regulamentada para uso terapêutico nos Estados Unidos até 2024, é retratada na série como um medicamento poderoso, capaz de trazer a cura para um dos maiores males enfrentados pelos norte-americanos: o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), como aponta a bióloga e neurocientista Flávia Zacouteguy Boos, neste artigo do CP. A substância que aumenta a empatia nas pessoas é uma grande aliada dos veteranos de guerra, por exemplo, que retornam às suas casas traumatizados pelos horrores dos campos de batalha e, muitas vezes, não sabem lidar com o que sentem. O MDMA funciona como uma chave que abre as portas dos traumas para que eles possam ser liberados.


A ironia é que a substância que é vista como a possível solução para um grave problema de saúde pública, é a mesma que, até bem pouco tempo atrás, era satanizada pelo governo que agora a saúda. No episódio, um veterano que cresceu nos anos 1990 lembra que foi ensinado a acreditar que existiam drogas boas e drogas más: “As boas levaram a uma epidemia de opiáceos e as más curam TEPT”.


A “droga do amor” é também a que traz uma das histórias mais emocionantes no campo dos psicodélicos. Foram as pesquisas e a resistência do casal Alexander “Sasha” e Ann Shulgin que ajudaram o MDMA a alcançar a posição de respeito científico que tem hoje. O episódio traz uma participação breve mas interessante de Ann, que fez sua passagem em 2022, poucos dias antes da série ser lançada.


Amor e resistência também são vistos na história da criação da Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies, a MAPS, uma das principais instituições de pesquisas psicodélicas do mundo, criada por Rick Doblin. Sem recursos públicos, a organização trava uma batalha sem precedentes para regularizar o uso do MDMA, depois de sua proibição sem embasamento científico, em 1985. A luta apaixonada de Doblin para tornar legal a terapia com MDMA pode estar chegando a um desfecho, mas os problemas não acabaram.


O MDMA é um psicodélico alterador de consciência que pode aumentar a sensação de conexão com outras pessoas, tornando quem o usa possivelmente mais vulnerável, mais sugestionável e com a capacidade de tomar decisões comprometida. Essas características também facilitam possíveis abusos sexuais, um tema que não foi abordado na série, apesar da MAPS estar atualmente respondendo por acusações de que alguns de seus terapeutas teriam fugido do protocolo durante um estudo.


Como o Ciência Psicodélica apontou neste post, defendemos que casos assim sejam investigados com seriedade, responsabilizando os envolvidos e trazendo justiça aos pacientes; lembrando ainda que falhas profissionais individuais não devem colocar em cheque a psicoterapia assistida com psicodélicos, que vem mostrando sua importância cada vez maior para pessoas em sofrimento psíquico. Para que a ciência psicodélica avance, devemos fomentar o debate racional e responsável não apenas da conduta terapêutica e da formação dos terapeutas, mas também sobre os abusos que acontecem no meio. Nesse sentido, talvez por falta de tempo ou de interesse de seus criadores, a série perdeu a oportunidade de trazer essa importante discussão à tona.


Peyote: reivindicações xamânicas



O último episódio, dedicado à mescalina, mostra a relação dos psicodélicos com as comunidades indígenas dos Estados Unidos. Para Pollan, não deixa de ser irônico que as pessoas que chegaram à América do Norte em busca de liberdade religiosa foram as mesmas que proibiram rituais e celebrações que não faziam parte de sua cultura, extinguindo o uso da mescalina por populações que já a utilizavam há séculos.


Neste episódio, fica evidente a tensão que existe entre as tradições dos povos originários e a crescente popularização do uso de psicodélicos. Membros da Igreja Nativa Americana, por exemplo, se posicionam contra a crescente onda de descriminalização de plantas e fungos expansores da consciência nos Estados Unidos. Isso porque o peiote já tem seu uso ritualístico regulamentado, e uma possível descriminalização poderia causar uma busca desenfreada pelo cacto que leva 12 anos para crescer, e que é considerado sagrado. Neste caso, classificar como crime o uso da planta por pessoas não indígenas pode ajudar a salvar as culturas nativas, o que mostra a complexidade das questões psicodélicas.


Apesar de arranhar a superfície da discussão sobre como o capitalismo transforma tudo o que toca em mercadoria, a série não se aprofunda no tema. Ficou de fora a discussão sobre quem terá acesso aos tratamentos caros com psicodélicos e como a indústria farmacêutica pretende se beneficiar dos lucros gerados por essas substâncias. Afinal, como escreveu a farmacêutica e bioquímica Tharcila Chaves, neste artigo do CP, “é assim que aquela revolução psicodélica colorida e cheia de boas intenções está progredindo: como mais uma peça do sistema capitalista.”


Trazendo um recorte centrado nos Estados Unidos e na Inglaterra, a série também deixa de lado a riqueza das culturas latino-americanas e da ciência feita no sul global. Apesar da DMT da ayahuasca integrar o time dos psicodélicos clássicos — ao lado do LSD, da psilocibina e da mescalina — o chá amazônico é ignorado na série.


No livro que serviu de inspiração à série, apesar de também não ser aprofundada, a ayahuasca aparece como um dos três principais marcos do chamado Renascimento Psicodélico nos Estados Unidos, ao ser regulamentada para cerimônias de alguns núcleos da União do Vegetal em solo norte-americano, em 2006, mesmo ano em que se comemorou o centenário de Albert Hoffman e a publicação de um artigo que investigou a relação da psilocibina com a experiência espiritual, o primeiro do tipo em mais de 40 anos.


Além disso, ao legitimar o potencial terapêutico e afirmar que somente as práticas indígenas nos oferecem a indicação da maneira mais adequada do uso de psicodélicos, a série faz uma crítica sutil ao uso recreativo (ou social) de substâncias sintéticas como o MDMA e o LSD, deixando escapar outra dimensão relevante no campo dos psicodélicos.


Como escreveu a farmacêutica e redutora de danos Ana Cristhina Sampaio Maluf (Maluf, 2021), apesar das pesquisas com psicodélicos terem se concentrado no seu potencial para tratar transtornos específicos, também existem evidências em relação ao efeito dessas substâncias em pessoas saudáveis, sem um diagnóstico de saúde mental. Mesmo que as evidências indiquem associação e não necessariamente relação de causa e efeito, resultados do tipo merecem ser examinados.


“Para além da possibilidade de uso terapêutico, para o tratamento de determinado transtorno, os psicodélicos representam também um importante instrumento artístico, filosófico, psicológico, psiconáutico, como ferramenta de autoconhecimento, mudança de padrões de pensamento e comportamento, desenvolvimento da criatividade e maior apreciação de estímulos sensoriais. Quando usados coletivamente, podem proporcionar a vivência de momentos significativos e a criação de vínculos. Portanto, esses usos, que genericamente são agrupados como recreativos, podem ter também uma função terapêutica, no sentido de melhoria da qualidade de vida, mesmo fora dos contextos clínicos”, escreveu Maluf. “Ademais, um uso com propósito inicial de recreação pode acabar proporcionando experiências vividas e significadas como espirituais.”


A proposta de Pollan nos minutos finais da série acaba reforçando essa ideia. Ao afirmar que “os psicodélicos poderiam nos ajudar a superar a crise ambiental ao nos mostrar qual é o nosso lugar na natureza”, o jornalista faz eco a pesquisas preliminares que apontam que o uso desses expansores, muitas vezes em pessoas que não apresentam transtornos, pode aumentar a sensação de conexão com a natureza, como mostra este artigo do CP.


A complexidade dos psicodélicos demanda uma lente de múltiplos ângulos para que se possa avaliá-los. Nesse sentido, como aponta Ana Maluf, é essencial que haja uma integração de conhecimentos entre as mais diversas áreas de estudo que produza perspectivas distintas, sobretudo em relação aos aspectos éticos e culturais. É importante considerar, sem moralismos, todos os seus usos para não incorrermos no erro de reforçar os mesmos estigmas que mantiveram essas substâncias nas sombras por tanto tempo. A série “Como Mudar sua Mente” faz um importante trabalho de derrubar preconceitos e trazer informações relevantes, posicionando essas substâncias como atores importantes da contemporaneidade. Mas, assim como a própria experiência psicodélica, a discussão sobre este tema nunca acaba quando termina.


 

Autor


Referências


  • Stephen, S. (2015) Acid Hype: American News Media and the Psychedelic Experience. Illinois: University of Illinois Press.

  • Maluf, Ana Cristhina Sampaio (2021). Uso recreativo de psicodélicos: histórico, práticas de redução de danos, contribuições epistêmicas e implicações para as políticas de drogas. Revista Platô da Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD). v.5, n.5. pp.77-100.

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